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PARTO ORGÁSMICO

Dar a luz parece quase sinônimo de dor e sacrifício. Mas quem acha que é impossível sentir prazer ao parir, e até mesmo ter orgasmo nessa hora, é bom conferir o documentário "Orgasmic Birth" que está chegando ao Brasil.

O filme acompanha de perto 11 mulheres que, num trabalho de dar a luz o mais natural possível, gemem, beijam, riem e até gozam. E traz também depoimento de vários especialistas no assunto, médicos e parteiras.

O obstetra Ricardo Jones, articulista do Absoluta e integrante de redes internacionais pela humanização do parto, é um dos consultores que integram o documentário. No artigo que se segue, de sua autoria e que faz parte do site do filme, ele explica que, durante o trabalho de parto, as mulheres liberam ocitocina, o mesmo hormônio produzido durante a relação sexual. Então, por este e outros tantos motivos, qualquer mulher, dadas as condições de intimidade, privacidade, carinho e respeito, pode ter um parto empoderador e orgásmico. Que segredo bem guardado este!



Parto orgásmico: o segredo mais bem guardado
"Se você não sabe das opções que tem é como se não tivesse nenhuma. Espero que ‘Parto Orgásmico’ seja mais que um filme, seja um movimento. As mulheres devem poder escolher a forma como querem ter seus filhos. Dar à luz é um direito humano." - Debra Pascali-Bonaro, diretora do documentário


Parto orgásmico não só é possível como é muito mais comum do que parece. O debate pode ser recente, mas a possibilidade de se encarar o parto como um evento pleno de prazer é tão antiga quanto a própria humanidade.

Inicialmente, é importante definir do que se trata parto orgásmico, e para tanto inicio explicando o que ele NÃO é. Parto orgásmico NÃO é uma técnica ou um método. Parto orgásmico NÃO é uma moda, uma "new fashion", uma onda. Parto orgásmico NÃO é um produto, algo que se compra ou adquire. Parto orgásmico é um mergulho profundo no ser feminino. É a descoberta do prazer de parir; o segredo mais bem guardado, no dizer da parteira americana Ina May Gaskin. O parto orgásmico é uma possibilidade para qualquer mulher desde que possa se despir das capas de medo criadas pela cultura patriarcal que tenta dominar a força criativa da mulher, culpabilizando-lhe o prazer e domesticando o feminino.

Entretanto, as conquistas recentes neste campo abriram as portas para a discussão da sexualidade da "nova mulher pós-pílula" e, como conseqüência, emergiu o Debate do parto como parte da vida sexual de qualquer mulher. A partir deste momento, em meados dos anos 80, inúmeros pesquisadores se entregaram ao estudo das características psicológicas, afetivas, emocionais e hormonais relativas ao nascimento e se depararam com constatações no mínimo inquietantes: havia uma similaridade impressionante entre parto e atividade sexual em todos os aspectos analisados. A mesma perda cognitiva, o mesmo apagamento neocortical, a mesma necessidade de privacidade, a mesma confluência circulatória para os genitais e os mesmos hormônios envolvidos.

Algo além do corpo - A ocitocina surgia como o hormônio-chave para a compreensão do fenômeno do parto. Michel Odent, médico francês radicado em Londres o chama de "o hormônio do amor", porque está presente sempre que um momento amoroso se expressa, como no parto e no encontro sexual.

Além disso, seu hormônio oposto, a adrenalina, fundamental para o orgasmo, é o mesmo hormônio implicado no reflexo de ejeção do bebê. Fácil fica, para qualquer observador perspicaz, que existe um claro paralelismo entre os eventos do parto e os do sexo, fazendo-nos enxergar pela primeira vez o nascimento inserido nas forças sexuais de uma mulher.

Mas tão logo percebemos a sexualidade escondida por detrás dos eventos que cercavam o nascimento, ficou-nos claro que as repercussões desta "nova" visão do nascimento só poderiam ser dramáticas. Já não seria possível encarar o parto como um evento biológico, artificialmente controlado em função das variáveis mecanicistas que são ensinadas na escola médica: feto, percurso e força contrátil. Haveria que se modificar totalmente a percepção do evento que passaria dos domínios do profano para o âmbito do sagrado. Através desta maneira radical de compreensão, tornava-se muito difícil continuar a entender o nascimento humano de uma forma mecanicista, pela evidência inequívoca de que a sexualidade extrapola claramente os limites da corporalidade.

Tanto quanto no sexo, existe muito mais no nascimento humano do que o que se pode encontrar no corpo e suas medidas. Assim sendo, abria-se automaticamente uma nova dimensão no nascimento, qual seja, a indissociabilidade das emoções e sentimentos ao lado dos eventos mecânicos já conhecidos. Ficou evidente que muitas mulheres falhavam em ter seus filhos de uma forma mais natural porque algo além do corpo as impedia. Passamos a entender também que a própria sensação dolorosa estava nitidamente ligada à maneira como tais mulheres "sentiam" o parto, na integralidade dos processos participantes. Elementos muito mais sutis (mas não menos poderosos) do que as células, tecidos e órgãos atuam durante a prática sexual e o trabalho de parto. Caberia a nós, assistentes do nascimento, descobrir onde estavam estas outras "forças ocultas" que, assim como no sexo, alojavam-se em um estrato diferente da nossa consciência superficial.
Desta forma, a sexualidade, o prazer e o orgasmo entravam no discurso de um pequeno grupo de profissionais que percebiam a possibilidade que as mulheres tinham de acessar estas sensações desde que específicas condições ambientais pudessem ser criadas. Tais condições nada têm de complexas, dispendiosas ou caras: trata-se de oferecer-lhes dignidade, privacidade, cuidado respeitoso e carinho. Praticamente as mesmas necessidades que qualquer mulher procura para um encontro de amor.

O orgasmo durante o trabalho de parto pode ter um potente efeito relaxante para a mulher. Algumas mulheres que tiveram orgasmos durante o processo relatam que isso lhes ofereceu um "input" incrementado de ocitocina. Tal influxo hormonal produziu - aparte de uma profunda sensação de bemestar - a normalização da contratilidade uterina. Entretanto, um orgasmo durante o trabalho de parto não é algo que se busca; não pode ser o foco objetivo deste evento ou algo a ser conscientemente alcançado. Por outro lado, ele pode ocorrer naturalmente quando a mulher, livre dos preconceitos e liberta das amarras do modelo que criminaliza a sexualidade feminina, se permite sentir as sensações que seu próprio corpo lhe oferece.

Mas qual a vantagem de ter parto orgásmico? - Que diferença positiva isso poderia produzir na vida de uma mulher ou um bebê? A este questionamento pode-se responder com uma pergunta: qual a vantagem de uma relação sexual prazerosa, com quem se ama, e que termina com um orgasmo? Um parto orgásmico é essencialmente um direito que cada mulher possui, mas para que um parto com este nível de arrebatamento sexual possa ocorrer é necessário que os profissionais que prestam assistência possam oferecer as condições para que tal ocorra. Se entendermos que as condições para que um parto seja orgásmico são as mesmas para oferecer tranqüilidade e harmonia durante o trabalho de parto, estaremos oferecendo às parturientes uma diminuição do stress e da ansiedade, com uma conseqüente quebra do círculo adrenalínico de medo-tensão-dor, descrito há décadas por Grantly Dick-Read como o principal complicador do processo de nascimento. O orgasmo durante o nascimento só pode ocorrer quando todas as variáveis de segurança, afeto, tranqüilidade e equilíbrio emocional estiverem garantidas. Desta forma, o orgasmo será a conseqüência deste ambiente de positividade, e não sua busca objetiva.

Fica claro para qualquer bom entendedor que este tema não se presta à realização de cursos e "workshops". Como dito anteriormente, parto orgásmico NÃO é uma técnica, um método o uma moda para mulheres burguesas que podem pagar por uma experiência diferente. Parto orgásmico é uma evidência empírica presente na experiência de inúmeros atendentes de parto e milhares de mulheres.

A princípio, tal questão assustou alguns profissionais mas depois os instigou a se perguntarem o "porquê" de algumas mulheres o atingirem, enquanto tantas outras apenas tratavam do parto como um evento cercado de medo e dor. Portanto, não se trata de fazer "cursos para partos orgásmicos", da mesma forma que não se ensina a uma mulher, através de aulas teóricas ou cursos, como atingir um orgasmo. É algo de sua experiência íntima, pessoal, assim como de sua história de vida. Os aspectos sexuais do nascimento são pesquisados por grupos em muitas partes do mundo, principalmente no Primal Health Institute, dirigido pelo médico francês Michel Odent.

Entretanto, a oficialidade médica obstétrica nega as dimensões sexuais do parto de maneira veemente. Tal negativa é fácil de entender, porque no meio acadêmico tradicional tal reconhecimento causa mal estar. Como questionar os pilares positivistas de nossa sociedade colocando o nascimento no mesmo patamar da sexualidade, com todos os seus tabus e mistérios? Como alçar o nascimento humano a esta posição sem, ao mesmo tempo, e inexoravelmente, colocar a mulher e o feminino em evidência, pois que estes fenômenos ocorrem na intimidade de seus corpos?

A proposta se mostra tremendamente complexa: encarar parto como encaramos o sexo nos obrigaria a uma reverência especial, para a qual nunca fomos habituados. Olhar a cena de parto, escutar seus sons e seus gestos como movimentos plenos de sentido erótico nos parece desconfortante, e nos levaria a questionar nossa própria sexualidade. Isso nos provoca pânico.

É impossível adentrar este novo universo aberto pela dimensão sexual do parto sem colocar em cheque toda a estrutura autoritária que governa o nascimento humano. Seria impossível introduzir uma mudança conceptual de tal magnitude sem causar uma grave conturbação, pois que ela questionaria a própria estrutura patriarcal da sociedade. Parto orgásmico é uma discussão e um desafio. Encarar a sexualidade feminina de uma forma mais ampla e complexa é uma forma de questionar a própria estrutura da sociedade em que estamos inseridos. Para isso é necessário coragem, determinação e amor pelo feminino. Combater o preconceito de frente é algo para os valorosos de espírito, e para aqueles que encaram a liberdade como meta última.

Ricardo Herbert Jones
Obstetra e homeopata, integrante das redes ReHuNa (Rede pela Humanização do Parto e Nascimento - Brasil), HumPar (Rede pela Humanização do Parto - Portugal) e IMBCI (International Motherbaby Childbirth Organization)
rhjones@bol.com.br
PORTO ALEGRE/RS
*Fonte: Orgasmic Birth Absoluta

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