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O que as grávidas (e os médicos) não sabem sobre os remédios

A medicina sabe muito pouco sobre o efeito de grande parte dos remédios sobre a gestação. Sempre que uma mulher precisa ser medicada durante a gravidez, o médico e a paciente enfrentam a difícil tarefa de tentar pesar o custo e o benefício do tratamento. As dúvidas são muitas: a droga é segura para a mãe? E para o bebê? Qual a dosagem ideal?

Para melhorar o conhecimento sobre esses efeitos, um grupo de trinta especialistas (médicos, cientistas, autoridades do governo e especialistas em ética) se reuniu recentemente em Washington, nos Estados Unidos, segundo reportagem da revista Time.

O grupo pretende pressionar as agências federais (como a FDA, que controla medicamentos e alimentos nos EUA) a reunir mais informações sobre o efeito dos remédios sobre as gestantes. Quer criar um sistema para concentrar dados sobre o que essas mulheres estão tomando e que efeitos estão sofrendo. Uma das ideias é reunir amostras de sangue de um grande número de grávidas em tratamento. Com esse banco, os médicos poderiam ter mais segurança sobre a efetividade da dose a ser prescrita.

Doenças crônicas, como depressão, epilepsia, diabetes e depressão não desaparecem magicamente durante a gravidez. Além disso, a tendência de postergar a gravidez para além dos 40 anos tem aumentado a parcela de gestantes que sofrem de câncer. Essas doenças - e muitas outras - não podem ficar sem tratamento. No entanto, a maior parte das drogas usadas nesses casos podem causar danos ao feto.

Como resolver essa equação? Procurei alguns professores de obstetrícia para aprender mais sobre isso. “Não podemos deixar essas mulheres sem tratamento durante a gravidez”, diz o médico Nelson Sass, da Universidade Federal de São Paulo. “Existe um princípio básico no tratamento de gestantes: a mãe tem prioridade no sentido de ter seu interesse clínico atendido”.

Diante de um câncer, por exemplo, ocorrem enormes dilemas. “Existem drogas com enorme potencial para afetar o feto, mas o interesse materno deve ser preservado”, diz. “Nosso código penal permite a interrupção da gravidez caso a manutenção dela implique risco à vida materna”.

As dúvidas não estão restritas apenas às drogas usadas para tratar doenças graves. Pouco se sabe também a respeito dos efeitos de muitos dos remédios comprados nas farmácias para aliviar incômodos corriqueiros.

A FDA classifica as drogas e seus efeitos sobre a gravidez em cinco categorias:

Categoria A: Apenas 0,7% das drogas disponíveis no mercado se enquadra nesse grupo. Amplos estudos bem conduzidos em humanos demonstraram que elas não aumentam o risco de o bebê nascer com defeitos congênitos. Exemplos: ácido fólico e vitamina B6.

Categoria B: 19% dos remédios estão nesse grupo. Essa categoria agrupa drogas que se enquadram em duas situações:

a) estudos com animais não apontaram risco de defeitos congênitos, mas não foram realizados longos estudos em humanos ou

b) estudos com animais sugerem que há risco, mas não há evidência de risco em humanos

Exemplo: o antibiótico amoxicilina

Categoria C: A maioria das drogas (66%) se enquadra nessa categoria. Ela engloba duas situações:

a) Estudos em animais sugerem um aumento do risco de danos ao feto, mas não foram realizados longos estudos em humanos

b) Não há longos estudos em animais ou humanos, mas os benefícios da droga parecem ser superiores ao risco

Exemplos: os antidepressivos Prozac e Zoloft e o antiviral Tamiflu

Categoria D: 7% dos remédios estão nesse grupo. Estudos em humanos apontaram um aumento de risco de defeitos, mas os benefícios da droga superam os riscos

Exemplos: o antibiótico tetraciclina e o quimioterápico Cytoxan

Categoria X: Agrupa outros 7% dos remédios. Estudos em humanos revelaram um aumento de risco de defeitos no feto ou estudos em animais sugeriram isso. O benefício das drogas é inferior ao risco.

Exemplos: o remédio contra acne Roacutan e o redutor de colesterol Lipitor

A leitura desses dados desperta duas questões: não é possível fazer um esforço conjunto para melhorar o conhecimento sobre essas drogas? Por que é tão difícil fazer esse tipo de pesquisa?

Pedi socorro ao professor Luiz Kulay Jr., do departamento de obstetrícia da Unifesp. Há 40 anos ele pesquisa o efeito de remédios em animais e, nas últimas etapas de teste, também em grávidas. “A análise da ação de medicamentos durante a gestação é de uma complexidade brutal”, diz Kulay Jr. “Estamos falando de três organismos que têm vida própria: a mulher, o feto e a placenta”.

Kulay Jr. diz que a placenta tem vida própria porque ela produz hormônios de forma independente. Quando a mãe toma um remédio, a substância passa pela placenta e chega ao feto. O feto, que tem funções próprias, devolve pela placenta o que não lhe serve. O organismo da mãe, então, tem de se virar para botar esses resíduos para fora do corpo.

“Em muitas situações, vivemos em total insegurança sobre a melhor escolha a fazer”, diz. “Quando a mãe toma vários remédios, a coisa se complica ainda mais porque a somatória de produtos pode potencializar ou anular o efeito do tratamento”.

Antigamente, o conceito de malformação do feto se limitava aos defeitos anatômicos, visíveis logo após o nascimento. Hoje a preocupação se volta também aos danos funcionais, aqueles que vão aparecer anos depois e comprometer o desenvolvimento da criança. É o caso de disfunções do sistema nervoso central que podem, entre outras coisas, comprometer o aprendizado.

Estudos com grávidas esbarram em várias questões éticas. Ninguém pode sequer pensar em fazer uma punção da placenta ou extrair um pedaço do fígado do feto para avaliar o efeito das drogas. Mas esse campo da ciência precisa encontrar formas de se reinventar e avançar. Com estudos éticos, aprofundados e longos o suficiente para reduzir a insegurança que médicos e pacientes enfrentam hoje.

Isso significa que as grávidas devem abandonar os remédios? De forma nenhuma. Significa apenas que as gestantes não devem tomar medicamento algum (nem os aparentemente inofensivos) sem conhecimento do médico. E que a avaliação do risco-benefício deve ser feita de forma consciente entre ela, o marido e o médico.

“Quando a gravidez é planejada e há um bom pré-natal, a maioria das mulheres que precisa tomar remédios vai muito bem durante a gestação e não há danos ao feto”, diz o professor Soubhi Kahhale, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

A equipe de Kahhale está terminando a avaliação de trinta pacientes que fizeram transplante de rim e tomam remédios imunossupressores para não rejeitar o órgão recebido. São drogas pesadas, que podem causar danos. “Mas elas engravidaram e seus filhos estão muito bem”.

Nem sempre é isso o que acontece. Há muitos casos de insucesso. Ainda assim, não há motivo para pânico. Mas a consciência sobre as limitações da medicina não faz mal a ninguém.


*Fonte: Época



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