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Como vacas para o matadouro. Ou: a hipocrisia na qual vivemos.

Adriana Tanese Nogueira

"Humanizing birth means understanding that the woman giving birth is a human being, not a machine and not just a container for making babies. Showing women ---half of all people--- that they are inferior and inadequate by taking away their power to give birth is a tragedy for all society."
Marsden Wagner

O caso que ocorreu no dia 2 de Julho no Rio de Janeiro é abominável. Uma mulher, em trabalho de parto e com sangramento, chegando ao Hospital Miguel Couto, na zona Sul, foi encaminhada por um médico para o Fernando Magalhães, na zona Norte da cidade. Lá a mulher, Manoela dos Santos, de 29 anos, foi submetida à cesárea com quadro de descolamento prematuro da placenta. Seu bebê nasceu morto.
O que podemos comentar a respeito? A primeira coisa que me vem à mente são as palavras do "Comunicado da FEBRASGO em Relação Às Casas de Parto" que, reunida em Brasília dia 12 de Junho passado, "reitera sua posição contrária à implantação das chamadas "Casas de Parto".
A FEBRASGO – continua o documento – reitera serem inadmissíveis, além de serem temerárias sob o ponto de vista materno-fetal, as tentativas insistentes e freqüentes de afastar o médico obstetra, profissional que detem os maiores conhecimentos e habilidades do processo do atendimento ao parto."
Assinam, além da diretoria da FEBRASGO, uma longa lista de associações, todas compactas em formação tartaruga como ensina o exército romano (http://pt.wikipedia.org/wiki/Forma%C3%A7%C3%A3o_tartaruga) na defesa da Imprenscindibilidade do Médico. Não há argumentos.
Há dogmas e decretos. Amém.
Pergunto, então, aos senhores da FEBRASGO o que fez essa figura Superior e Insubstituível na hora em que deveria demonstrar ao mundo sua Necessidade e Competência? Rabiscou no braço de uma grávida em franco trabalho de parto as linhas de ônibus para que fosse do outro lado da cidade parir seu filho. O que é realmente imprenscindível, senhores Doutores, é aquele Respeito às mulheres que suas academias não ensinam. Imprenscindível é desenvolver entre seus membros aquela Empatia essencial no trato com o outro. Imprenscindível é encontrar de vez uma solução entre a frieza necessária para operar sobre o corpo do outro e a Sensibilidade para com o outro. Imprenscindível é ensinarem a esses estudantes de Medicina como lidar com suas Emoções sem perdê-las e desenvolver um conjunto elementar de Habilidades Relacionais para não decairem na paródia do Juramento de Hipócrates.
Outra grávida carioca, Marina Peres, de 23 anos, que fazia seu pré-natal na Maternidade Escola do Rio de Janeiro em Laranjeiras, desistiu. "Maternidade cobaia" ela a batizou. Sua presença lá não passava de mero corpo opaco que médicos e estudantes estudavam e analizavam. Suas perguntas caiam no vazio, ela era sequer olhada. Futuros médicos e médicas, com ares de superioridade, faziam piadas e riam entre si exibindo elitismo e grosseria.
Cadê sua humanização? E ainda têm a coragem de chamar seu trato de humanizado? Por que usam anestesia? Não fazendo a mulher sentir, estão livres para fazer com ela o que bem entenderem. Isso não é humanização. É manipulação. Quando sorrisos e boas maneiras acontecem é porque cada minuto de seu tempo é pago com várias notas de 100 reais. Triste realidade. Se a mulher não tiver suficiente economias para investir, ela não passa de "vaca para o matadouro". Mais uma, com número e tudo, para ocupar um leito, para incomodar com seus gritos, para atrasar seus compromissos.
Nessa sociedade autoritária na qual vivemos, é sobre as costas das mulheres que os fardos pesam. Qual sorte terá o tal médico plantonista do Miguel Couto? Será certamente bem protegido e cuidado por seus colegas.
E vamos um pouco além: cadê o pai daquele bebê? Onde estava o co-responsável por aquela criatura que na hora de seu nascimento haveria de estar presente para proteger sua mulher e seu filho? Cadê o genitor que deveria mandar o plantonista do Miguel Couto para aquele lugar e exigir que sua mulher fosse internada imediatamente? Que deveria gritar e berrar, fazer um escândalo digno de país civilizado para exigir que seus direitos fossem cumpridos?
E mais um passo à frente, para completar o quadro de hipocrisia no qual vivemos. Ainda tem-se a pafúrdia de chamar de criminosas as mulheres quando estas não querem gestar e parir uma criança que elas não podem sustentar e que ninguém vai ajudá-las a criar.
Sob um outro ponto de vista, talvez em outra Era da Civilização, isso poder-se-ia chamar de responsabilidade, não de crime. Mas estamos numa sociedade hipócrita e machista. Então é crime. O réu é sempre a mulher. Quem se dá mal é ela e ai de levantar sua voz. Quando ela engravida é porque quis, ainda no esquema bolorendo e ridículo do pobre Adão e da tentadora Eva. Cabe-lhe se virar. Neste rastro, vão dizer agora que a culpa pelo ocorrido outro dia no Rio de Janeiro é da tal grávida que resolveu ir ao hospital errado e acabou perdendo seu filho.

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