Pular para o conteúdo principal

Parto é sexo

Repassando um texto óóóóótimo que retirei do blog Mamíferas. Escrito pela Kalu Brum, mãe, jornalista e voluntária da ONG Bem Nascer, em BH!
Grifos são meus.... do que achei mais interessante!


 
O obstetra e pesquisador Michel Odent provou que os hormônios presentes durante o nascimento são os mesmos liberados na hora do orgasmo. Assim como para fazer amor, parir exige um ambiente em que a mulher se sinta segura, não vigiada, seduzida por sons, cheiros e liberdade para adotar a posição que mais lhe satisfizer.

Existe um paralelo direto entre o parto e o sexo. Mas uma recomendação importante: nunca diga isso por aí. Afinal, vivemos em uma sociedade que parir é algo raro, talvez tanto quanto gozar. Fingir pode.

Vivemos em uma sociedade tão doente e sexualizada que as boas práticas sexuais são combatidas. Parto é uma extensão e reflexo da vida sexual de uma mulher, assim como um reflexo de sua cultura. Dar de mamar também. As mulheres preferem fingir orgasmo, sentem mais prazer em caber numa calça do que na hora do sexo. Se não vêem problema em mutilar o corpo para transfigurar-se com uma lipo ou um silicone, aceitar uma cirurgia para extração de um feto é mais rápido, planejado e teoricamente, indolor.

Em nossa sociedade, a medicalização também é algo bem vindo para sanar as dores existenciais. O corpo perde, desde cedo a habilidade de funcionar fisiologicamente e precisa sempre de uma ajuda externa. Me surpreende o número de mulheres com constipação intestinal. Mas em nossa sociedade fragmentada, sexo não tem relação com parto. Doença não tem relação com processos psicológicos. Para tudo, médico e remédio.

As mulheres não se tocam, as mulheres não conhecem seus corpos, as mulheres só conhecem a beleza das capas de revista, dos seios de silicone. Por isso o parto é algo estranho: ver sair o que elas nunca queriam que tivesse entrado por ali. Os seios de fora podem ser mostrados para o mundo, mas nunca sugados pelo filho.

Muita gente fala sobre as facilidades de nossas avós parirem. Acho que para elas também não era tão fácil diante da repressão sexual que viviam. O fato é que não havia escolha. Teria que sair por onde entrou ou lidar com a morte. Do ponto de vista da preservação, o lugar do parto (geralmente em casa), cercadas de outras mulheres, facilitava o clima para entrega do corpo para o nascimento. Talvez naquele momento vivessem a verdadeira experiência sexual de suas vidas.

Dizer que parto é sexo é traçar uma linha direta para algo que ninguém quer olhar. Por ser direto, choca. Por chocar gera revolta. As mulheres que sentem que perderam algo e vão fundo, investigam, redescobrem sua mulher selvagem, fazem as pazes com ela e podem, num novo parto ou na instância sexual de suas vidas, serem mais fêmeas, mais realizadas. As demais continuam nos xingando, dizendo que não são menos mãe, rotulando. É mais fácil apontar a ferida fora do que curar a de dentro. E se incomoda, acredite, há algo dentro de si que merece ser investigado.

Cultivamos ainda a sensação de pecado. Gozar é pecado. Sentir prazer ao parir, é pecado. Ser mãe é quase ganhar uma instância de Santa. Como se pureza e prazer não pudesse andar juntos. Ainda preferem vestir uma camisolinhas com buraco para parirem assim como nossas avós faziam sexo. Afinal, se parto é sexo, muitos partos e não partos se assemelham a um estupro.

Eu tive um orgasmo no momento do nascimento do meu filho. Primeiro eu senti o círculo de fogo, que parece aquela sensação de perder a virgindade: levemente dolorosa mas de um prazer da carne. Aí ele passou e quando seu corpo girava dentro de mim senti-me tocada interiormente de uma maneira tão intensa. Enquanto eu o abraçava com força com minhas intimidades, eu era acariciada interiormente como nenhuma outra vez pude ser. Os hormônios pulsantes, a presença do marido e seu cheiro, a luz baixa, a lua que sorria no céu, a vida que chegava rápida e natural como um orgasmo. Não sabia que poderia sentir aquilo. Afinal eu pensava que parto era uma coisa imaculada como a gestação. E tanto na gestação como no parto eu experimentei uma faceta selvagem, sexual do meu ser, que se despedia, não para sempre, mas naquela intensidade, no orgasmo do parto. Delicioso e intenso.

Não acho que o orgasmo no parto deva ser uma busca. Mas que nunca esqueçamos que o prazer em parir é nosso direito e a medida que permitimos que nossos instintos acordem poderemos vivenciar este prazer em uma instância física também.

Sempre há chance de aprender a gozar. Sempre há a chance de parir. E um não parto pode ser curado em uma amamentação prazerosa. É a força da vida em ação em outra faceta. O importante é não parar na ferida e se calar diante da dificuldade fingindo. Fingir que está tudo bem para agradar ao outro ou uma instancia de si mesmo, é covardia.

O primeiro passo é assumir. E saber que muitas vezes achamos que o dono do nosso prazer, do nosso parto, é o médico ou o parceiro. Aí nasce o erro. Quando assumimos que o parto é nosso, que o corpo é nosso e encontramos nossa maneira de expressão, podemos olhar ao longe a face da liberdade.Muitos não partos, muitos não orgasmos são um caminho tortuoso que encontramos para cuidar de nossa sexualidade.

Por fim, se nossas avós lutaram por uma verdadeira expressão da sexualidade feminina, hoje vejo que estamos desenhando o verdadeiro caminho da feminilidade. Com menos atributos externos que fazem vender coisas e mais fundamentos internos que fazem mudar o mundo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Linha Purpura e parto

Durante a gestação o corpo da mulher se modifica, se pigmenta e algumas linhas se formam... Uma das linhas mais conhecidas é a linha nigra, aquela linha escura que aparece no abdome da maioria das gestantes devido alterações hormonais e que depois some...  Mas agora conhecemos uma outra linha, menos perceptível (por estar mais escondida) mas com uma função maravilhosa: indicar indiretamente a evolução do trabalho de parto! Sim!!! O corpo consegue expressar qual o nível de descida do bebê e dilatação do colo através de uma linha que aparece no bumbum: a linha purpura!! Não é demais????? Eu já havia notado a linha purpura em gestantes, mas nunca me atentei para ela... nem imaginava porque ela existia!!! A linha purpura foi descrita e estudada apenas por parteiras cujos estudos já são meio antigos (1990 e 1998) e este ano voltou a ser comentada através da tese de livre docência da Dra. Nádia Zanon Narchi, que resolveu usar a linha purpura como método auxiliar de avaliação de fase ativa do t…

Secreções vaginais durante a gestação e parto

FAQ do site da ONG Amigas do Parto...




Que tipos de secreções vaginais uma gestante pode apresentar?
Durante a gestação e o trabalho de parto as mulheres podem apresentar secreções vaginais consideradas fisiológicas ou não a depender de suas características e época de aparecimento. Basicamente temos 4 tipos de perdas vaginais:
1. Corrimento vaginal
2. Sangramento
3. Tampão mucoso
4. Líquido amniótico
Como são as características de um corrimento vaginal fisiológico?
A cavidade vaginal é como a cavidade oral, assim como temos saliva na boca, temos uma certa quantidade de corrimento na vagina, algumas mulheres têm mais e outras menos. Durante a gestação, a quantidade desta secreção fica aumentada e tem como característica ser esbranquiçada, com odor característico da vagina que não é desagradável como de peixe estragado, e também não é acompanhada de coceira. A gestante também não apresenta ardor ou dor na relação sexual. A coloração do corrimento deve ser observada quando está saindo e nã…

Exercícios para o parto

FOTO 1 -Exercícios Kegel
Durante o último mês da gravidez, alguns exercícios simples podem ajudar a preparar seus músculos para o trabalho.

Comece com exercícios Kegel, que ajudam a manter o tônus dos músculos pélvicos. Basta apertar os seus músculos pélvicos como se você parar o fluxo de urina. Tente manter por cinco segundos, por quatro ou cinco vezes. Depois tente manter os músculos contraídos durante 10 segundos, relaxando 10 segundos entre as contrações. Objetivo é realizar, pelo menos, três séries de 10 repetições por dia. Você pode fazer os exercícios em pé, sentada ou deitada.

FOTO 2 - O alfaiate sentado
O alfaiate sentado trabalha os músculos das coxas e pélvis. Também melhora a postura, mantém as articulações pélvicas flexíveis e aumenta o fluxo sanguíneo para a região mais baixa do corpo.

Para praticar a posição, sente no chão com suas costas retas. Junte as plantas dos pés, puxe o calcanhar para sua virilha e suavemente relaxe os joelhos. Você vai se sentir um estirament…