A dor de não ver o filho nascer

Há pouquíssimo tempo, uma mulher muito querida perdeu seu bebê. Era sua segunda gestação e toda família estava vibrante com o novo bebê que estava para chegar, mas infelizmente uma má notícia pegou todos de surpresa. Imagino sua dor e me sinto muito mal por não poder fazer algo. Mas estou com ela em pensamento todos os dias (como se meus pensamentos pudessem aliviá-la e confortá-la de alguma forma).
E é para essa mulher e também para outras mulheres que perderam seus bebês, que trago esta matéria da Revista Criativa
Abraços apertados em todas! E muita luz!! SEMPRE!!


Após sofrer dois abortos espontâneos, Maria Manuela Pontes sentiu que a sociedade não entendia seu luto. Então criou uma associação para ajudar outras mulheres a enfrentar esse drama.

A portuguesa Maria Manuela Pontes perdeu dois bebês em seis meses. Engravidou, sofreu um aborto espontâneo, voltou a engravidar após três meses e, mais uma vez, teve uma perda. Em casos como esse, somos culturalmente treinadas a calar, a superar o quanto antes não a perda de um filho, mas a de um embrião, como se o fato de não tê-lo visto nascer atenuasse o sofrimento. Não foi o que Manuela fez. Ela criou uma rede online para ajudar a si mesma e a outras mulheres que passavam por situações semelhantes. O projeto cresceu, ganhou espaço também fora da internet e rendeu um livro, Maternidade Interrompida – O Drama da Perda Gestacional, lançado recentemente em São Paulo – ocasião em que Manuela conversou com a CRIATIVA.

A portuguesa de 38 anos (30 à época), natural da cidade de Chaves, conta que saiu em busca de auxílio tomada por uma dor imensa, mas disposta a encarar o problema – a ponto de voltar a dar aulas de português e latim uma semana depois de deixar o hospital. Ela precisava compreender o que havia acontecido e tentar dar um sentido a tudo aquilo. Mas só encontrou considerações médicas técnicas, em que o “produto abortivo” era analisado para que se detectasse algum problema específico.

Na internet, as informações disponíveis giravam em torno de definir o aborto espontâneo e especular as possíveis causas. Mas não era isso que Manuela queria ou precisava ler. O que ela buscava era algum tipo de troca sobre a experiência dessa perda, um espaço em que as mulheres fossem acolhidas sem que lugares-comuns cruéis, ainda que desprovidos de intenção negativa, fossem ditos e reditos. “O processo de luto incomoda. Ninguém gosta de ter alguém sofrendo ou deprimido por perto”, diz Manuela. “Nessa hora, é muito fácil dizer para dar a volta por cima, para se animar, evitando tocar no assunto por ser deprimente. Mas não falar a respeito e agir como se nada tivesse acontecido é que deprime.”

Naquela época, o relacionamento com a família e com os amigos ficou complicado. Ninguém sabia o que fazer ou dizer. Frases como “foi melhor assim; se o bebê não vingou era porque tinha algum problema”, “melhor perder agora do que depois que ele nascesse” ou então “você é jovem, ainda terá muitos bebês”, segundo Manuela, são de um desconsolo infinito. “No início, fingia que estava bem e que me recuperava em perfeitas condições. Com o tempo, optei por me afastar”, diz.

Já no marido, Luis, que também sofria, ela se lembra de ter encontrado apoio incondicional. Juntos, eles conseguiram superar a dor. Conversaram bastante, compartilharam sentimentos e, para Manuela, esse foi o passo vital para que a vida deles não perdesse o sentido e ela pudesse, meses depois do segundo aborto, enfim engravidar de Vitória, nascida em 2002. Quatro anos depois viria outro filho, Mateus.

Segundo Manuela, não é permitido à mulher viver o luto pela perda do bebê durante a gestação – algo causado por falta de informação, que leva muitos a não saber o que dizer, ou por negação do fato, como se essa dor fosse incomparável à de perder um filho. “Dor não é mensurável”, diz Manuela, “e uma mulher que perdeu um filho durante a gestação não sofre menos que uma que perdeu um filho vivo, mas a sociedade trata seu sofrimento como algo menor, como efêmero e pouco importante. Falar em perda gestacional, por incrível que pareça, é um tabu.”

Como não encontrou nada que desse apoio a quem passa por um aborto espontâneo, Maria Manuela decidiu fundar, em Portugal, o Projecto Artémis, voltado para o processo da perda gestacional, que Manuela chama de “maternidade interrompida”. Inicialmente, ele funcionava apenas virtualmente, em formato de fórum de debates online nos quais era possível trocar experiências e encontrar aconselhamento psicológico. “A mulher que perde um bebê não quer ouvir, ela precisa falar. Precisa de alguém que queira ouvi-la sem ficar diminuindo seu sofrimento.”

A Artémis defende a ideia de que a mulher se torna mãe no momento em que se sabe grávida. Ao sofrer um aborto, portanto, não apenas a gestação seria interrompida, mas a própria maternidade. O grupo de apoio online passou a existir no final de 2002, depois do nascimento de Vitória. Em menos de um mês, as discussões contavam com quase 500 mulheres, entre as quais muitas brasileiras.

“A mulher que perde um bebê não quer ouvir, ela precisa falar”

A associação nasceu em Braga e expandiu-se para mais dois núcleos, no Porto e em Maia. O que até então funcionava apenas virtualmente passou a ter sede com espaço físico para encontros, assistência psicológica e grupos de apoio. A partir da formação das turmas e do acúmulo de informações, surgiu a ideia de escrever sobre essa experiência no livro Maternidade Interrompida, o que permitiu expandi-la para além dos limites do Projecto Artémis.
“Foi melhor assim; se o bebê não vingou era porque tinha algum problema” e “melhor perder agora do que depois que ele nascesse” são frases de um desconsolo infinito, segundo Manuela


Em Portugal, o protocolo médico encaminha as mulheres para estudo clínico somente depois da terceira perda gestacional, realidade semelhante à do Brasil, onde só quem sofre três ou mais perdas até a vigésima semana tem seu caso encaminhado para análise. “Imagine que eu engravide e perca o bebê três vezes seguidas. Só então é que receberei algum tipo de assistência especializada, quando, se eu tivesse sido avaliada desde a primeira perda, muito provavelmente não precisaria passar por algo tão devastador”, afirma Manuela, que lamenta o fato de a questão não ser encarada como um problema de saúde pública. Em Portugal, entre 16% e 30% das gestações confirmadas resultam em aborto natural. No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, são 26%. “O que mais magoa é o desprezo generalizado por esse sentimento, tanto que, diante da perda, os médicos falam em seleção natural”, diz Manuela. “Eles precisam entender que, se eu perder o bebê, vou engravidar de novo e não vai ser uma gravidez feliz. Vou passar toda a gestação com medo, aterrorizada pela perda.”

“O processo de luto incomoda. Ninguém gosta de ter alguém sofrendo ou deprimido por perto”

No caso de Manuela, depois de três anos de tentativas, dois abortos espontâneos e muita dor compartilhada com o marido, vieram os dois filhos, e hoje ela vive com Vitória, de 8 anos, e Mateus, de 4. Mas, quando perguntam quantos filhos o casal tem, a resposta é quatro.

O drama, por elas e por eles

O conjunto de histórias reunidas por Maria Manuela Pontes traz relatos emocionantes de mulheres e homens que passaram pela associação em busca de ajuda. Ainda que a maioria seja extremamente triste (como o caso de Mafalda Sobral, que perdeu nove bebês até ver nascer o seu primeiro filho), trata-se também de uma fonte sólida de esperança. É interessante contrapor os relatos das mulheres com os dos homens, que, ao contrário do que se supõe, mostram que sofrem tanto quanto as companheiras. A diferença está na perplexidade com que experimentam essa perda e o sentimento de impotência. “O livro é a promessa que fiz de não cruzar os braços e a prova de que é possível sobreviver. Com ele, dou um sentido a tudo o que vivi”, diz a autora. Leia abaixo alguns dos depoimentos:

“Sofri indescritivelmente a dor da perda por nove vezes. Fazem parte da minha vida nove perdas, nove filhos que partiram. É impossível não mudar, não se transmutarem os valores, as prioridades. Hoje, encaro o processo de perda como uma fase da vida que me ajudou a crescer como mulher” – Mafalda Sobral

“A dor e a angústia são companheiras permanentes de caminhada. A sensação de perda e de vazio por vezes é insuportável. Começo aos poucos a ver um novo caminho, a fazer as pazes comigo, com o mundo, com Deus. Começo a sentir renascer a esperança de ainda ter um filho para poder abraçar e amar.” – Celeste

“Fui pai quatro vezes, mas só uma filha posso cingir nos braços, pegar ao colo, beijar e dizer: ‘dorme com os anjos’. Por isso, quando relembro os outros três bebês, inunda-me um vazio, uma certa nostalgia, e revejo-me preso à pergunta ‘Por quê?’. Dizem que é a vida, e eu também sinto isso.” – Alexandre


Maternidade Interrompida – O Drama da Perda Gestacional. Maria Manuela Pontes. Editora Ágora. 216 págs. R$ 45,90.

2 comentários:

Nathalia disse...

Olá meu nome eé Nathalia,tenho 19 anos
achei super interessante o que Maria Manuela fez!
hoje completo 1 mes que eu perdi a minha filha, eu estava de 5 meses, des do 2 mes de gestação eu tive sangramentos,so depois entao que descobri que tinha a placenta baixa!
nos meus sangramentos cheguei a perde parte da placenta,ate que um dia eu senti uma dor muito grande de baixo da barriga fui ao medico,fiz exames e descobri que tava com infecção de urina,mais ao inves de me deixa internada me mandaram pra casa pra toma remedio por 10 dias,mais eu nao aguentei 10 dias,no dia seguinte senti muita dor,e quando me levantei pra ir ao banheiro o cordão umbilical saiu :S
por pouco nao vejo minha filha caindo no vaso,e entao a dor seria maior ainda ao ter que pegala numa situação daquelas!
fui para o hospital e la fui para a sala de parto normal,no entando a minha menina saiu junto com o cordão umbilical,mais a placenta ficou, ai fui para a sala de cesariana ja esta tudo pronto para fazer, foi onde meu medico chegou e nao deixo fazer! e eu fui para a sala de curetagen! pra mim perde a minha filha foi e ainda continua sendo uma dor muito grande! so qm passo por isso sabe a dor que eé perde um filho.

Anônimo disse...

a pouco tempo estive grávida mas ás dez semanas descobri que estava a crescer morto estou a tentar engravidar de novo mas a dor que ainda sinto é muito grande apesar de me sentir preparada para dar amor a outro filho