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Relato de mais um PD

O relato de hoje é de uma grande amiga minha, fisioterapeuta e também doula!! Infelizmente não consegui acompanhá-la, pois seu bebê nasceu antes de minha chegada... safadinho!!! Mas pelo menos pude cuidá-la um pouquinho no pós-parto... o que já significou muito para mim!!! Conversamos, repassamos as experiências, dei uma mão nos primeiros dias.... adooooro!
Só para vocês se situarem:
K. = marido
M. = doula
A. = parteiro
F. = filha mais velha
L. = bebê

Sempre quis ser mãe. Sonhava em ter 4, 5 filhos. Desde muito pequena gostava de bebês, adorava criança.
Engravidei aos 24 anos.
F., minha primeira filha, nasceu de cesárea desnecessária. Um baque, uma decepção. Ao mesmo tempo a imensa alegria de ser mãe, a interminável dor por não ter proporcionado um nascimento que eu acredito ser o melhor.
Depois do nascimento da F., tive certeza do que queria e fui buscar mesmo, com toda garra e força que poderia ter. Já trabalhava como fisioterapeuta, e já acompanhava gestantes.
Fiz curso de doula, me tornei acompanhante de parto. Fiz voluntariado no Hospital Maternidade de Bauru por um ano e meio. Vivi intensamente cada parto. Me envolvia muito.
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Gestação 2
 Em 2009 engravidei de novo. Agora um menininho estava a caminho! Tudo que eu sempre sonhei, um casal. Estava muito feliz pela gravidez, ao mesmo tempo muito insegura na vida num geral.
Claro que incertezas apareciam e durante a gestação “emburreci” um pouco como profissional da saúde e apenas ficavam as inseguranças de mãe quase inexperiente! Quem me agüentava em minhas infindáveis noites sem dormir com: será que vou mesmo conseguir parir? Será que meu útero vai dar conta? Eram a M. e  aRê.... Claro que eu sabia todas as respostas teóricas, precisavam apenas descer ao coração.
Passei uma gestação conturbada, cheia de medos, dúvidas, anseios, inseguranças em relação ao meu casamento. Passei boa parte da gravidez sozinha, sozinha em casa, preocupada...
Com o L. eu estava muito bem e feliz! Falava muito com ele, explicava sempre quando estava triste que a culpa não era dele, cantava, fazia carinho e cada mexidinha dele eu vibrava, pq sabia que provavelmente seria meu ultimo bebê... e curtia cada instante com esse serzinho dentro de mim.Curti cada segundo com esse bebê na minha barriga, revendo o que deu errado na primeira gestação, e os fantasmas foram saindo aos poucos.
Eram noites e noites no skype com M., F. dormia e lá ia eu expor meus medos, minhas inseguranças. Por exatos 9 meses eu simplesmente me entreguei à gestação como se eu não fosse doula, nem fisio, nem conhecedora de nada... Regredi um pouco nos conhecimentos teóricos e me aprofundei nos medos inconscientes. Revivi minha cesárea, sofri, chorei, senti raiva e busquei algo novo para esse parto.
Fui buscar meu tão sonhado PN.  Busquei em Campinas, não deu certo. Me informei muito sobre os hospitais humanizados aqui por perto, tbém não deu certo. Daí parti pro PD e comecei a pesquisar, me informar sobre tudo sobre o parto em casa. Conversei com 4 parteiras e uma médica, não deu certo. As coisas não se encaixavam por alguma razão...
E então... Com meus estudos e instinto comecei meeeesmo a pensar que o melhor lugar pra parir era em casa. Conheci A, que se dispôs a vir pra me assistir!!! Ele estaria de férias coincidentemente na minha data provável, então começamos uma linda amizade. Companheirismo, atenção, partejar....
Eu continuava meu pré-natal com meu médico comum, tirava dúvidas com A. láaaa em Portugal e assim íamos nos conhecendo.
Um belo dia comecei a sentir contrações. Elas vinham bem frequentes durante a madrugada. E quando o dia começava a aparecer elas desapareciam... Fiquei assim por uma semana. Quando elas começavam a incomodar muito, comecei a me preocupar, já estava com 38 semanas e o A. ainda demoraria mais uma semana pra chegar. E se não desse tempo dele chegar??? E se eu tivesse que ir pro hospital???
Liguei desesperada pra M., e pedi que ela viesse! Meu irmão foi até São José buscá-la, e vieram direto pra casa. (Nesse meio tempo, K. resolveu voltar para casa. Conversamos e achamos que o melhor era que ficássemos juntos nesse processo todo novo.)
As contrações realmente estavam engrenando, ligamos pra A. me passou um medicamento pra segurar um pouquinho, até ele chegar. Depois de muita conversa, explicando que L. poderia esperar mais um pouco, as contrações foram ficando leves, e puff! Sumiram. Apenas as comuns, esporádicas e sem dor. E assim ficamos nessa próxima semana. Passeamos muito, eu e M. Fofocamos, brincamos, fomos ao salão de cabelo. M. fez as unhas, cabelo, fomos ao shopping, M. fez até uma tatuagem!
Então numa sexta-feira a tarde, meu irmão e K. foram pra São Paulo buscar o tão esperado parteiro! Dia 14. Pegaram ele lá em SP e trouxeram direto pra casa.
Eu estava deitada na minha cama, era por volta de meia noite. Nunca vou me esquecer das palavras e daquele doce olhar. A. entrou no meu quarto, se agachou do meu lado, olhou no fundo dos meus olhos e me disse: "tudo bem minha querida? Pronto, estou aqui." Só eu sei que profundidade teve aquele momento, aquelas palavras, aquele olhar. Me senti segura, acolhida. Fizemos um toque, nada de dilatação. Colo grosso. Uffa... não era hora mesmo. Tudo sob controle.
A próxima semana pudemos nos conhecer melhor. Conversamos muito, passeamos. A. estreitou os laços com meus pais. Tiveram lindos passeio juntos, chácara, barzinhos, música, comida.
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Dia P
Era feriado, dia 21 de abril, estávamos A. e M. em casa. De manhã ficamos em casa vendo TV, distraímos um pouco. Á tarde resolvemos ir tomar um sorvete, passeamos. Pela manhã estava tomando banho e senti dentro de mim: É hoje que nasce. Não comentei com ninguém com medo que fosse algo da minha cabeça e estava tbem me sentindo um pouco pressionada para o nascimento, então apenas relaxei e guardei o segredo pra mim. Era algo entre eu, o L. e a natureza.
Eu já estava perdendo o tampão há uns dois dias e as contrações começavam a incomodar um pouco, mas eu desconsiderava, pq esperava algo muito pior (rsrsr).
A tardezinha, combinamos eu e M. para a nossa tão esperada saidinha noturna só nós duas! Tomamos banho, nos arrumamos toda emperiquitadas, maquiagem, salto alto... E fomos nós duas num barzinho novo da cidade, muito bonito.  Durante os meses da gestação ficávamos pensando em nós duas passeando e ali estávamos, finalmente! Sentamos numa mesa, comemos mandioca frita, suco. Conversa vai e conversa vem, o garçom paquerando a M., e a gente dando risada....
Comecei a sentir umas contrações um pouco mais doloridas e aquela sensação bem ruim na lombar. Começou a me incomodar e disse que achava que precisava descansar, já era por volta as 10h30 da noite.
Fomos embora, felizes e contentes, dando risada da vida.
Chegamos em casa, o K. estava vendo TV, a M.sentou aqui na sala com ele, e ficaram por aqui. Eu disse boa noite e que ia descansar, já era 11hs.
Deitei, alonguei um pouco mas aquela dorzinha me dizia que iria aumentar....
As contrações começaram a ritmar e então elas vinham, eu olhava no relógio. Como se tivesse sido apertado um botão de START elas vieram para ficar.
Das 11 à meia noite consegui dormir, depois não conseguia mais. Comecei a observar o intervalo entre elas, das 11h as 0h00 elas vieram ritmadas exatamente de 3 em 3 minutos durante toda essa hora... Quando foi meia noite não dava mais. A dor já estava muito forte e eu começava a me irritar.
Vim devagar até a sala e disse: "K., chama a M. pq acho que agora vai..."
Ela veio desesperada, demos risada, mas ela já percebeu que não estava mais pra brincadeira, e então falou pro K. ligar imediatamente pro A. que estava na casa dos meus pais. 20 minutos já estavam todos aqui. Parteiro A, pai, mãe, irmão.
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Engrenou
E lá fui eu......... As contrações já doíam muito. Era uma dor diferente de tudo que eu já havia sentindo antes, não parecia cólica menstrual nem sentia pressão em baixo. Era algo muito diferente. Apertava e doía as pernas.
Eu estava muito cansada pelo dia, tínhamos passeado muito e eu não tinha descansado nenhum pouco, as pernas estavam inchadas. Então eu sentava na poltrona no cantinho do quarto entre as contrações, e quando elas vinham eu levantava, ficar sentada era impossível. Apoiava as pernas num triangulo (aquelas almofadas de ver TV) e quando a contração vinha eu chutava longe.
Comecei a ficar mal humorada e de olhos fechados.
Não conseguia mais pensar em nada. Não pensei na F., não pensei nas pessoas que estavam aqui em casa, não pensei nos meus problemas com o K..... parece que fui inundada por uma onda de hormônios que me davam uma espécie de adormecimento das emoções. Eu simplesmente estava ali sentindo cada contração e não pensava em nada. Naqueles primeiros momentos eu não senti nada, nem medo, nem ansiedade. Apenas pensava: "meu Deus.... meu corpo está reagindo, estou em TP." Mas nem felicidade extrema eu senti, foi apenas uma entrega total e absoluta.
Minha mãe entrou no quarto, pedi que colocasse musica no meu notebook que já estava numa mesinha ao lado da minha cama. Minha mãe ia buscando musicas de adoração no you tube que sabia que eu gostava, e elas iam rolando. Minha mãe ficou no cantinho do quarto durante o TP todo. Muitas vezes nem percebi a sua presença, só vi pelas fotos depois.
A M. era meu porto seguro, as contrações vinham eu só sabia esticar as mãos pra ela segurar. Eu rebolava, semi agachava, abaixava o tronco para frente. Sentia uma dor na barriga insuportável como se o bebe não estivesse numa posição muito legal lá dentro, era estranho. Eu fazia rotações como querendo ajuda-lo a virar o dorso. (estava com o dorso à esquerda).
Andava, rebolava, agachava. Sentei na bola, doía mais. Não quis.
O jeito era apoiar a mão de alguém (geralmente do marido ou da M.) e alguém atrás pressionando minha lombar para baixo ou apenas sentindo o calor da mão (ou marido ou mãe ou M. revezando).
Comecei a sentir as contrações mais fortes como se eu tivesse sendo levada por uma onda muito forte e não fosse me controlar, pedia para M. me ajudar a respirar. Eu olhava pra ela respirando e conseguia me controlar, pq a contração vinha e eu não conseguia relaxar, aquilo doía demais. Eu perdia o fôlego, me desconcentrava.
De vez em quando A. vinha no quarto auscultar o bebe, eu sentei na bola para facilitar e comecei a tremer, e pensava: "era isso que minhas doulandas sentiam! Que coisa esquisita!!!". Me sentia uma idiota tremendo feito vara verde em cima da bola, meu marido olhava com cara de assustado e só escutei A. explicando para ele o por que daquela tremedeira toda. A sensação não era ruim, era até que boa, como se algo estivesse funcionando bem.
Eu tinha a sensação que meu corpo não funcionaria, como da outra vez, senti. Na gestação da F. “parei”, ou melhor, me pararam,  nos 3 centimetros e sem aquela dor insuportável que já estava sentindo dessa vez.
A. fez um toque, quis matá-lo naquele momento, deitei para fazer o toque, e quando deitava parecia que eu ia explodir de raiva, não queria ficar naquela posição, queria que acabasse logo aquilo, olhava para M. pedindo ajuda e ela apenas com o olhar me acalmava. Rapidamente levantei e continuei minha caminhada.
Cada vez que A. vinha com aquela porcaria de aparelho eu ficava com muita raiva, mesmo sem deitar aquilo doía demais, estava sensível a barriga, muito dolorida.
Depois desse primeiro toque, estava com 4 cm, comecei a vocalizar muito.
As contrações vinham e eu fazia sons como aaaaaaaaaa, hmmmmmmmm. Aliviava muito e eu não estava nem ai com as pessoas. Não senti vergonha. Lembrei nesse momento de uma amiga doula, C. que dizia muito da relação da abertura da glote e abertura do colo uterino. E então eu abria a boca e dizia aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa com muito prazer, obrigada.
Num momento deitei na cama para descansar um pouco entre uma contração e outra, apoiei no meu marido. Minha mãe e a M. saíram do quarto. Nunca me senti num momento tão intimo com meu marido, foi incrível. Aquela contração veio: a mais dolorida do mundo apertou muito e eu sentada, olhando no fundo dos olhos dele soltava sons. Ele assustou e disse envergonhado: "uche! Que isso?". Demos risada... e o resto que falamos não posso contar. Mas foi incrível, uma sensação de plenitude e intimidade indescritível.
Também senti um resgate da minha feminilidade e pensava: eu dou conta, eu sou mulher, sou mamífera, sou bicho também e vou conseguir.
Em alguns momentos eu pensava: "minha vó teve 7 filhos de parto normal! Eu vou conseguir! Minha outra vó teve 4! Minha sogra e minha cunhada tiveram tbém! Todas as mulheres no mundo conseguiam!!! Eu vou conseguir! Vou superar e vou provar para mim mesma muitas coisas"... Sempre me senti uma mulher forte, estava passando uma crise na minha vida, e como em todas as outras buscando formas de me superar, e dessa vez estava mesmo conseguindo.
A busca não foi fácil. Preconceitos, medos, angústias.
Em alguns momentos me sentia (desculpa a expressão) a “fodona” por estar passando por aquilo. Sentia que aquela dor era a mais intensa da minha vida, e penso hoje que realmente era. Doía a minha alma também. Muitas dores sendo exorcizadas com certeza.
E assim foi... as contrações vinham, eu cantava, rebolava, agachava.
Fui pro chuveiro, aliviava bastante, não me lembro muito bem nos horários que entrei no chuveiro. Lembro que ainda com uns 5cm pedi um chuveiro quente, mas senti muito frio e quis sair.
Escovei o dente, ainda era noite acho. A. deu risada que disse nunca ter visto alguém escovar os dentes em TP. Pedi um cheiro pra M. no difusor, não sei que mistureba ela fez, mas ficou bom demais. Aquela fragrância me fez um bem danado!
E assim foi.
A.fez mais um toque, era de madrugada, não tenho a menor idéia do horário. Penso que depois das 4hs da manhã. Estava com 7 cm. Naquele momento me senti tão aliviada! Pensei: agora não tem mais volta, ninguém mais me tira o meu PN. Há não ser eu mesma..... por que exatamente depois disso entrei numa paranóia!
Eu não queria mais.
Cada um que entrava no quarto, M., K., A., eu falava: "por favor, não quero mais isso. Ta bom já, se eu tiver que ir pro hospital já estou satisfeita, já vivi tudo que eu queria viver, só tira essa dor pelo amor de Deus."
A M. começou então a falar: "Você é forte, vc vai conseguir, está acabando já. Cada contração ela falava que era uma a menos", e eu jamais imaginei que essa frase seria tão importante para mim. Me dava um consolo, uma força sem igual. K. depois brincou que eu parecia uma bobinha acreditando que já estava acabando e me acalmava achando mesmo, e ele pensando: "meu Deus, ela vai falar isso em TODAS as contrações?" Rsrs
Mas se ela não falasse, eu perguntava: está acabando? E ela confirmava.
Nesse momento difícil o A. entrou no quarto para auscultar. Comecei a achar que tinha algo de errado. Ele fez uma cara estranha, a M. olhou para ele também estranho. E ele ficou ali por muito tempo ouvindo o coração, que me parecia também estranho. O coração do bebê estava disritmado e devagar. Me preocupei e perguntei se estava tudo bem, ele disse que sim.
Perguntei se ele estava sendo sincero comigo, e ele olhando no fundo dos meus olhos disse que jamais nos colocaria em risco, que se fosse necessário uma remoção isso seria feito.
Eu já estava com quase dilatação completa quando comecei a surtar. Não queria mais aquilo, e não imaginava também que estava na transição, esqueci que existia isso tudo. Eu simplesmente não queria mais sentir aquilo. Tava exausta, com sono, cansada. Para mim já estava bom demais tudo aquilo, já estava passando do legal para o extremamente exaustivo. Eu tava irritada, com muito sono. Chegava a sonhar entre as contrações.
Pedi chuveiro, fiquei lá por um bom tempo, perguntei pro A. se podia, pq tive medo de estacionar o processo. Ele disse q não tinha mais volta... e eu podia relaxar que logo o L. vinha.
Era de manhã, entrei no chuveiro, e perguntei onde o K.estava, pq me deu a sensação que o L. ia nascer logo e o K. não iria ver. A M. disse que ele tinha ido avisar no trabalho que não ia. Senti medo e um pouco de desamparo.
Mas logo em seguida pedi para chamá-lo e ele veio. Entrou no chuveiro comigo, eu perdia a noção do tanto que eu tava gritando, já estava começando a me desesperar, segurava na janela e gritava, gritava. K. se assustou um pouco e eu falava que não queria mais, que queria que acabasse logo. Comecei a pedir pro L. vir, não sei se falei em voz alta, mas implorei pra ele nascer logo que eu não agüentava mais.
Ficamos ali no chuveiro juntos ele segurando minha mão, entrou de bermuda, estava muito calor. Foi boa a presença dele, me passou segurança e consegui me controlar um pouco mais.
Sai do chuveiro, pedi pro A. um toque. Tal minha surpresa: dilatação total, eu nem acreditava que tinha dilatado tudo!  Mas estava tão, tão cansada que não conseguia ficar feliz.
Deitei na cama, apoiei com um monte de travesseiro, em baixo do lençol tinha o plástico, tava quente e escorregando. Fiz tudo errado, devia ter colocado lençol de elástico e aquele treco que absorve, a cama ficou uma bagunça, me deu um pouco de raiva, mas passou rápido.
Deitei nos travesseiros, nesse momento vi que já estava de dia e que todo mundo estava dentro do quarto. Meu pai do meu lado, meu irmão filmando, a M.  do meu ladinho, K. tirando fotos, minha mãe na porta do quarto. Eu estava pelada, não sentia a menor vergonha, alias nem sabia muito bem o que estava acontecendo, estava mesmo em outro plano.
Os batimentos do L. estavam caindo e o A. pediu que eu fizesse força que precisava nascer sem muita demora.
Eu não conseguia sair daquela posição, queria parir de cócoras, mas não conseguia. Fiquei deitada mesmo.
Comecei a fazer força, estava exausta.
Cada contração que eu fazia eu pedia para o A. me ajudar, quando ele tocava, talvez fazendo massagem no períneo eu sentia um alivio absurdo! E então pedia para ele me “ajudar”.
Num momento eu perguntei:” você vai cortar?’ Não sei o que passou na minha cabeça, é obvio que ele não ia cortar nada. Ele delicadamente me disse que não, que não ia cortar nada e que jamais mentiria para mim.
Senti frio nos pés. Estava muito calor e eu estava cansada e irritada. Pedi uma meia, fiquei inteira pelada só com uma meia cor de rosa. Bem ridícula por sinal.
A contração começou a mudar, eu não sentia mais aquela dor insuportável, já conseguia conversar, as contrações não doíam como antes e eram diferentes. Eu não sentia aquela pressão que imaginava que ia sentir, apenas sentia: faça força. Mas eu imaginava que era algo incontrolável como eu ouvia as doulandas dizendo que era uma força assim e assado, e eu não sentia assim, até imaginei que não estava tendo puxos. Mas eu precisava de um certo comando, pq estava dormindo entre as contrações. A. me orientava a maneira de fazer a força, senti que eu estava desistindo.
Ele dizia: “faz força com a ginica”! E eu pensava: “que raios esse português ta falando meu Deus”!!!
Mas fazia a força que eu sabia. Argh, força errada. Não conseguia fazer força direito, nesse momento me senti muito mal, me senti uma inútil que não conseguia por o próprio filho para fora. Me senti com raiva de mim mesma e das pessoas que estavam ali.
Fui inundada por uma sensação ruim. Logo passou.
Escutei a F. acordando, era mais de 9h30 da manhã.
Ela abria a porta, fechava a porta, escutava os gritinhos dela aqui na sala, e me irritou. Pedi que levassem ela lá para a rua.
Não sei se foi uma proteção para ela mesma, ou se foi algo meu. Mas não queria escutar ela ali perto. Ouvi que minha mãe saiu do quarto e foi com ela para fora.
De repente eu senti uma contração e disse: “agora chega, vem L.”! E comecei a dizer: “vem, vem, vem.”
A cada contração eu sentia ele descendo mais um pouco. E nessa então senti que ele veio mesmo, todo mundo no quarto fazia a força comigo. Quando acabava a contração eu via todo mundo respirando, tomando fôlego de novo. Minha mãe ficou cansada de tanta força que fez, até meu pai, irmão e K. fizeram força.
E na ultima contração eu sentia que estava direcionando a força corretamente: e o A. disse: “não para, essa está perfeita minha querida!!! Vamos!”
E veio a cabeça.
PELO AMOR DE DEUS, que era aquilo!
Soltei um “PUTA QUE O PARIUUUU”. Ardia muito. O A. disse: “vc se lembra das meninas dizendo nos relatos o que era o anel de fogo? Pois é isso que estais a sentir minha querida! “
Eu quis matar alguém, ardia muito e eu falei: “gelo gelo gelo”. Sem noção, rs.
Pensei que tinha nascido inteiro e perguntava: “cadê meu bebe, cadê meu bebe???” Ninguém entendia o que eu estava falando e a M. dizia: “ta tudo bem”. Por alguns segundos achei que ele estava mal e estavam me escondendo alguma coisa, mas ele ainda estava dentro de mim.
A contração parou, a cabeça estava para fora e eu gritei: “chama todo mundo! Cadê a F.???”
A. pediu para eu não fazer força, senti  um certo desespero no ar. No olhar da M..
L.estava com uma circular apertada, ele cortou o cordão imediatamente e clampeou.
Na próxima contração veio o corpinho, não fiz força. Senti cada rotação, cada pedacinho do seu corpinho e dei um urro. Um berro e outro palavrão que é melhor nem escrever aqui.
Impressionanteeeeeeeeeeemente lá veio o L. direto pro meu colo!
Aquele corpinho quentinho, todo melecado, cheio de sangue.
Que sensação incrível, sublime, não tenho como dizer o que senti. Me senti plena, cheia, transbordante. E eu como nos meus sonhos dizia: EU CONSEGUI!!! EU CONSEGUI!!!
E eu falava e olhava para M. e dizia: “eu consegui!!! Ahauahuahu eu consegui!!!”
Me emociono ao lembrar.
Foi intenso, supremo.
Sentir o L. nos meus braços foi a cura maior da minha vida. Aquele serzinho tão pequenininho!
E eu disse: seja bem vindo meu amor! Eu te amo tanto!!!
Chamei a F. e olhei pros olhinhos assustados e alegres dela e dizia: “obrigada”
F.! Só por vc que a mamãe fez isso!!! Foi por vc também!!! Obrigada F.! Obrigada F. meu amor!!!
Pedi para dar um beijo nela, mas ela assustou com o sangue, dei um beijinho e não insisti.
Fiquei ali vendo o L. sendo cuidado por A. e chorando feito criança.
Não tínhamos arrumado a roupinha pra colocar nele, pq nem esperava que fosse nesse dia... Minha mãe foi lá ainda passar a roupinha dele, enquanto ele estava enroladinho num roupão da mamãe.
Logo ele voltou pro meu colo, e ali ficamos na próxima hora. Fez uma pega linda, mamou perfeitamente!  Ficamos ali, nos conhecendo, namorando! Logo colocamos roupinha nele e eu fui comer!
Meu pai havia preparado uma sopa pra mim, e eu fui comer. Que delícia!!! Tava morta de fome!!!
Meia hora depois fui tomar banho, enquanto cuidavam do L. F. o pegou, vovó, papai.
Foi tudo muito incrível!!!

AGRADECIMENTOS
Obrigada Senhor pelo sonho realizado, pelo começo da cura emocional.
Obrigada por tudo ter acontecido da maneira que sonhei, planejei, quis e desejei com toda minha alma.
Obrigada pela minha família que sempre me apoiou em todos os momentos.
K: obrigada por me proporcionar a maior e mais incrível viagem que uma mulher pode vivenciar, que é a maternidade. Sem você eu não teria as duas coisas mais preciosas da minha vida, que são F.e L..
Pai e Mãe: obrigada por absolutamente tudo. Amizade, apoio incondicional, amor real.
M.: obrigada pela amizade, carinho, profissionalismo, sem você certamente eu não teria conquistado nada disso.
Irmão: obrigada pela sua amizade. Você é o meu melhor irmão!! E tbém pelas fotos! Meu fotógrafo particular!
Rê: obrigada pela sua amizade sincera e pelo seu carinho comigo. Antes, durante e depois. Sempre!
A.: sem palavras. Obrigada pela assistência. E pela força que sempre deu.. Obrigada por me ajudar com paciência nesse lindo processo. Você foi peça fundamental pra realização do meu sonho!
Obrigada a todos da minha família e amigos, que de alguma maneira me incentivaram a realizar meu sonho, mesmo que não entendessem a profundidade disso tudo.
DEUS: MINHA GRATIDÃO E AMOR ETERNO. SOU GRATA POR TUDO.

AE
Novembro de 2010. Quando consegui parir o relato.


Comentários

erickakp disse…
Quase todo relato que eu leio mostra a mãe, na fase final, dizendo que 'não quer mais brincar de PN'. Isso mostra o quanto é importante estar cercada das pessoas certas.
Parabéns, o relato é lindo! Espero ter uma experiência tão libertadora e transformadora quanto essa.
Andréia Doula disse…
sim... não é nada fácil, rs.
Mas a gente consegue!!!
beijos!!!

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