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[Relato] Uma cicatriz no ventre e outra no coração

Esse relato é da última gestante que acompanhei. Fui chamada quando ela ainda estava de  20 semanas... e em cada encontro semanal, conversávamos muito e sonhávamos com o dia P... 
Ela escolheu um hospital daqui que tem um serviço dito humanizado e com vááárias referências legais!  Inclusive, já doulei várias gestantes lá, que tiveram partos ótimos....
Mas, infelizmente as coisas não sairam do jeito que queríamos ... e hospital e a equipe  que a recebeu nos causou grande frustração!! 
Em mim, fica aquela sensação de missão não cumprida.... de luta perdida por causa dos outros, mas é difícil conseguir acertar quando outras pessoas fazem tudo errado....andam na contra-mão do respeito, da dignidade, da humanização, da natureza do parto.
E porque colocar um relato assim aqui? Porque acho importante todo mundo saber que nem sempre as coisas acontecem do jeito que imaginávamos! E que isso pode acontecer com qualquer um...
Só comprova que a reportagem da Folha sobre os maus tratos durante o parto é real!
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Uma cicatriz no ventre e outra no coração

Tenho adiado a tarefa de falar sobre meu 1º parto porque, sempre que começo a pensar na experiência que tive, fico um pouco melancólica, pois me vêm à memória lembranças que eu preferiria esquecer. Contudo acho que preciso escrever, talvez seja uma forma de exorcizar meus fantasmas, talvez seja uma maneira de organizar meus pensamentos sobre tudo o que aconteceu naquele dia, talvez eu precise desse relato para poder seguir em frente.

Fui dormir com um pouco de cólica, era uma quinta-feira. Apesar de ser uma dorzinha incômoda, fiquei feliz, pois estava completando 40 semanas naquele dia e tinha uma preocupação de o trabalho de parto demorar para acontecer e os médicos acharem necessário induzi-lo. Durante a noite, acordei várias vezes com uma dor um pouco mais intensa, que logo passava. No início da manhã, já não conseguia mais dormir: as cólicas finalmente haviam se transformado em contrações.

Eu e meu marido começamos a marcar o intervalo entre elas e a duração de cada uma, mas estavam bem irregulares ainda. Ligamos para nossa doula, só para informá-la de que nosso “milagre” poderia acontecer naquele dia e ela apareceu no fim da manhã. Com ela, apareceu também a regularidade: as contrações passaram a acontecer num intervalo de 5 minutos. E assim foi durante todo o dia. No início da noite, as dores já estavam bem mais fortes e o intervalo passou para 3 minutos. Depois de 1 hora nessa freqüência, decidimos ir ao hospital.

Foi aí que tudo começou a desandar. Até então, enquanto estava em casa, as dores eram fortes, mas eu estava tranqüila. Estava, sim, muito ansiosa para ver minha filha, mas também feliz, porque me sentia amparada por meu marido e pela nossa doula. Durante todo o tempo, eles se revezaram para fazer massagens nas minhas costas, nos meus pés e pernas. Conversamos bastante sobre como seria com o bebê em casa, falamos sobre amenidades e tudo me pareceu bem.

No hospital, fui atendida por um estudante que fez o exame de toque mais doloroso da minha vida. Quando disse estar sentindo muita dor, ele me respondeu que, se eu queria mesmo um parto de cócoras, deveria sentir dor. Aquilo, para mim, foi um absurdo. O fato de desejar um parto natural, então, significava que ele poderia me examinar sem cuidado ou me provocar dores teoricamente mais leves que a do parto? Minha frustração aumentou ainda mais quando ele disse que eu estava apenas com 1 cm de dilatação e chegou ao auge quando ele, por erro ou má-fé, rompeu minha bolsa.

Bolsa rota, 1 cm de dilatação. Internação. Não me deixaram sair de lá, embora minha vontade fosse sair correndo. Eu não contava com aquela situação e não sabia o que fazer. Em minha cabeça, começava uma corrida contra o tempo, afinal eu precisaria dilatar 9 cm e rápido. Eu sabia que eles não esperariam muito, por causa da bolsa. Sabia que eles tentariam forçar uma dilatação com ocitocina. Sabia que isso seria bastante sofrido. E sabia que toda aquela pressão, aliada ao tratamento de choque que eles estavam me dando, faria meu corpo travar.

Quando cheguei à sala de pré-parto, tentei me acalmar e esquecer a “recepção” que havia tido. Conversei com meu marido, fiz uma oração e recebi o apoio de uma enfermeira fantástica. Passei a madrugada entre banhos quentes e caminhadas. Quase no início da manhã, a docente que estava de plantão veio me ver, fez novo exame de toque e viu que nada havia mudado, eu ainda estava com apenas 1 cm de dilatação. Ela me disse, então, que, de acordo com sua experiência, eu não evoluiria além daquilo e que seria necessário fazer uma cesárea. Disse que viria me ver novamente em 2 horas e que, se nada tivesse acontecido, ela me encaminharia para a cirurgia.

Meu Deus!! Aquilo estava fugindo totalmente do controle. O que ela dizia não fazia o menor sentido, era diferente de tudo o que eu tinha ouvido no Grupo de Parto Alternativo. Por que eu não evoluiria? Por que estabelecer esse prazo de 2 horas? Por que não esperar mais um pouco? O que ela falava parecia uma incoerência, mas me sentia impotente. Como responder àquilo?

Fiquei paralisada, tentando entender o que estava acontecendo, rezando para dilatar tudo em 5 minutos, quando apareceu no quarto uma outra estudante, muito atenciosa, que ficou tentando me acalmar. Ela ficava me dizendo que eu conseguiria meu parto natural, que seria lindo etc etc etc. “Espera um pouco, mocinha! A médica acabou de sair daqui, dizendo que eu teria que fazer uma cesárea!”. Não sei se a resposta que ela me deu deveria me tranqüilizar ou me desesperar. Ela me disse, meio em segredo, que aquela médica “gostava” de fazer cesáreas. E me disse ainda que não precisaria me preocupar, porque ela estava em uma cirurgia naquele momento e que depois iria embora e outra docente entraria de plantão.

Foi o que aconteceu. No sábado, pela manhã, uma nova docente veio até o quarto me examinar, viu que eu estava com 2 cm de dilatação e me disse que viria novamente na hora do almoço verificar a evolução. Sugeriu ocitocina, mas aceitou esperar até o próximo toque para iniciar a indução. Ótimo! Essa médica conseguiu me deixar mais calma. Ela permitiu a entrada da nossa doula e eu recomecei os exercícios com a bola, caminhadas e chuveiro. Ela me deixou comer e eu sentia minhas forças voltando.

Hora do almoço, nova frustração. Apenas 3 cm de dilatação. Quase chorei. Ela tentou me acalmar outra vez, disse que aquilo era normal num 1º parto, mas que, por causa da bolsa rota, achava melhor introduzir a ocitocina. Tentei argumentar, dizendo que as dores aumentariam muito rápido e novamente ouvi a famosa frase de que, se eu queria um parto de cócoras, deveria sentir mesmo aquela dor. Aceitei, mas já me sentia derrotada. Eu sabia que as contrações seriam imediatamente intensificadas e eu ainda não estava preparada para aquilo. Elas começaram em poucos minutos e eu já não conseguia me entregar à dor, apesar de todo o esforço da nossa doula para me fazer vencê-la. Sentia meu corpo se fechando, à medida que o relógio avançava e a tarde chegava. Nesse período, estudantes entravam e saiam do quarto, com seus procedimentos formatados, como se ali não houvesse pessoas e sim robôs. Vez ou outra, eu ouvia que tinha que doer mesmo, afinal “quem mandou querer um parto alternativo?”.

Início da noite. Nova docente. Novo exame de toque. Nenhuma evolução. Muitos fatores que indicavam uma cesárea: havia mecônio, a bolsa já estava rompida há 24 horas e eu estava com apenas 3 cm de dilatação e completamente entregue. Não pude negar.

A cirurgia foi uma loucura. O anestesista não conseguia achar o ponto certo e disse que a culpa era minha, que não ficava parada. Ouvi minha filha chorar em menos de 5 minutos e logo sair com meu marido para os procedimentos. A médica deixou uma estudante fazer os pontos e eles ficavam falando mal de outros médicos, enquanto finalizavam a cirurgia. Ufa! Esse dia não terminaria nunca?

No domingo, dia seguinte, sentia-me atropelada por um caminhão. Ainda bem que a equipe de enfermagem foi super acolhedora e prestativa. Elas fizeram de tudo para que eu e as outras mães nos sentíssemos melhor. Fiquei com a minha filha linda e, apesar da dor, consegui tomar banho e fazer o que precisava para cuidar do meu bebê. Parecia até que estava em outro hospital. As equipes de enfermagem e pediatria merecem prêmios.

Naquele dia, não queria pensar muito no sábado anterior, mas comecei a conversar com as outras mulheres que estavam no quarto e acabamos percebendo algo bem estranho. A maioria de nós havia passado por uma cesárea e as histórias, os motivos de cada uma eram, no mínimo, questionáveis. O que teria acontecido com o hospital em que eu confiei meu parto natural? O tão falado “Hospital Amigo da Criança” era Inimigo da Mãe?

Quando me alertavam de que aquele era um hospital-escola não passava pela minha cabeça que eu seria atendida daquela forma tão técnica e tão desumana. Apenas imaginava que seria atendida por estudantes, supervisionados por docentes. Eu pensava que a desvantagem de ser atendida em um hospital-escola seria a inexperiência de alguns profissionais, no entanto me deparei com futuros médicos extremamente preconceituosos, muito bem treinados para operar máquinas e bisturis, mas muito pouco preparados para lidar com seres humanos e suas fragilidades.

Hoje sei que minha cesárea, no momento em que eu estava, era, de fato, necessária. Mas sei também que, se meu trabalho de parto tivesse sido conduzido por pessoas mais humanas e menos tecnicistas, talvez eu tivesse conseguido meu tão sonhado parto natural. Essa experiência também fez com que eu me conhecesse melhor. Acho que subestimei o poder das emoções e, enfim, acabei descobrindo que sou uma pessoa extremamente suscetível a elas. Sinto não ter me feito mais forte para resistir às agressões veladas que me foram sendo feitas ao longo do meu trabalho de parto. Sinto não ter conseguido ficar imune a tantas pressões e preconceito. Nessa aventura, eu fracassei.

O domingo me deu bastante tempo para pensar, mas, ainda assim, não consegui elaborar tudo o que eu havia passado no dia anterior. Sei que em outro hospital não esperariam tanto tempo com a bolsa rota, mas fiquei me sentindo, sim, sabotada, pois esperava encontrar suporte e não sarcasmo. Durante minha gestação, ouvi muitos relatos de mulheres que receberam, no mesmo lugar, outro tratamento e isso me deixa mais chateada: saber que ali não existe um padrão, tudo depende da sorte ou azar.  Sorte de estar lá no plantão de um médico preocupado com o paciente, um médico que atenda seres humanos e não cobaias. Azar de chegar no dia de um médico prepotente, que atende um número e não uma pessoa. Eu tive azar. E hoje preciso aceitar as conseqüências por ter aceitado esse risco. Se eu tivesse conseguido o parto que eu planejei, seria maravilhoso, mas eu estava em outra estatística.

Que bom que, independente do tipo de parto, o resultado é sempre um pequeno milagre da vida. Minha filha nasceu gordinha, linda e esperta. O fato de eu ter esperado o tempo certo, o fato de ela ter sentido o trabalho de parto acontecer, tudo isso contribuiu para um nascimento saudável, apesar dos pesares. Eu consegui amamentar sem problemas e agora ela cresce a olhos vistos. É nisso que eu tento pensar todos os dias para esquecer esse trauma que vivi. Não posso desanimar, não posso levar esses fantasmas para o futuro, não posso parar. Agora só preciso curar minhas cicatrizes. As duas.


Comentários

Renatinha disse…
Ai q Re, q historia triste e revoltante, nao?
nao existe palavras pra dizer o qto doi veros planos de uma gestante indo por agua abaixo por causa de erro humano ou desfeita, melhor dizendo.
sonho com o dia em cursos para parteiras no Brasil seja uma regra, nao a excessao, e que hospitais estejam mais abertos pro servico de parto normal.
Semana passada eu postei uma serie de reportagem sobre um hospital daqui, mas a vinculcao no Brasil eh proibida :(
Vc iria gostar de ver..
Espero q essas pessoas q mal trataram essa gestante, sintam uma dor na consciencia tao grande, mas tao grande, e q se arrependam amargamente em serem como sao!
bjus
Flavi disse…
Que absurdo tudo isso! Juro que se fosse comigo eu revidaria, não consigo ficar calada ouvindo absurdos com essa mãe ouviu, fico revoltada só de ler uma história assim. A grande maioria dos médicos acham que são "Deus" até mesmo esses "pirralhos" projetos de médicos pensam que sabem tudo. Não ficaria calada se fosse comigo, não mesmo! Teria resposta na ponta da língua.
Desculpe o desabafo...

Beijosss
Evellyn Luz disse…
Aiaiaiaiiiiiii!!!
Medaaaaaa!!! rsrsrs
angela disse…
meu parto aconteceu no dia 18/08/2010,não quero mais filhos,e estou traumatizada tambem,me vi em seu relato,e até sei que o hospital é o mesmo pelo qual passei,étriste,mas não sei se essa moçada tá preparada não!

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