Infantilização materna


O post de hoje é uma pequena reflexão. Não sei se tem ou não sentido, se está certo ou errado, só sei que quis escrever sobre isso porque é algo que me incomoda.

Dia desses estava conversando com algumas pessoas e um assunto que me mobiliza entrou em pauta: o fato de gestantes serem chamadas de gravidinhas ou mãezinhas!
Não sei a vocês, minhas queridas leitoras, mas a mim esses termos causam arrepios!! Porque pra mim é o modo mais explícito de infantilização materna! E me incomoda ver que profissionais de saúde e outras pessoas rebaixam (mesmo que inconscientemente) a condição de gestar e parir de uma mulher! Me incomoda ver que essas mulheres deixam de ter uma identidade ao se tornarem grávidas.
Elas deixam de ser Bruna, Joana, Claudia para se tornarem "mãezinhas", "gravidinhas" ...Me passam a impressão de que são apenas um corpo desempoderado, fragilizado, sem consciência, livre de escolhas, de poder de decisão, que tem - como única saída - confiar plenamente na equipe que à assiste.. tipo, "a coitadinha".

"Ai que linda! Você é uma gravidinha! Pode subir nessa escadinha, e esticar o bracinho para eu aferir sua pressão?"..
"Não se preocupe... você está gravidinha, mas eu sou o médico!"
"Não se preocupe, mãezinha... nós estamos aqui para que seu bebê nasça bem"
"Ô mãezinha, não chora... o aleitamento é difícil mesmo"


Não gosto! E porquê? Porque crianças são frágeis, não tomam decisões, não são responsáveis por si mesmas, não comandam suas vidas... e se "menorizarmos" as mulheres, estaremos reafirmando sua incapacidade de decidir, de se responsabilizar, de comandar, de protagonizar sua gestação, parto e amamentação... algo que ocorre única e exclusivamente nelas. Estaremos reafirmando que elas são incompetentes, inferiores, frágeis e que necessitam obrigatoriamente de cuidados especializados.

Na minha visão, o período gestacional/puerperal já é um período onde nós mulheres somos tratadas com zelo excessivo, como se estivessemos doentes. Além disso, a sociedade nos aterroriza com histórias horríveis, negativas, que nos fazem duvidar de nossa própria capacidade.. e aí, ainda temos que ser tratadas desse jeito??

"Mas é carinhoso!! Bonitinho!" vocês podem falar... Mas tenho certeza que há outros termos que podem ser empregados no lugar do "gravidinha" e do "mãezinha" para demonstrar carinho e respeito à uma gestante.
Eu geralmente uso o nome da pessoa e intercalo com o termo "barriguda"... Adoro barrigudas. Mas, já recebi crítica sobre esse meu modo de tratamento. Disseram ser rude e grosseiro, mas não enxergo dessa forma! Uma mulher empoderada, orientada, feliz, saudável terá orgulho de sua barriga... E não vejo problema em exaltar o mais belo sinal de gravidez!!
Aliás, não vejo problema nenhum em exaltar as qualidades maternas, seus corpos e seus poderes de gerar e parir..  Porque é assim que as gestantes devem ser vistas, descritas, tratadas! Jamais deveriam ser chamadas de "inhas"... Pelo menos, as minhas gestantes não são tratadas assim! Pra mim, elas serão barrigudas que posteriormente se tornarão mães... mãezonas, com M maísculo!!!


PS1: Cheguei a fazer uma "mini-pesquisa" com as mulheres ao meu redor, gestantes e mamães... e entre elas, não houve rejeição sobre o termo "barriguda"! Mas nenhuma referiu gostar do "mãezinha" e "gravidinha"... Mas, e vocês, o que acham disso tudo?

PS2: O termo barriguda só é usado por mim durante a gestação. Antes e depois disso, já vira adjetivo pejorativo e aí ninguém merece, né? rs
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PS3:  "Barriguda" é um dos nomes populares de um tipo de paineira que tem um tronco lindo, que parece uma mulher grávida! Olhem só:

Foto do blog Meio Ambiente Urandi-BA

PS4: Os "Secos e Molhados" fizeram uma homenagem às mulheres barrigudas.  :) 
  



 
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5 comentários:

PatydaSara disse...

Renata
antes eu achava legal e delicado da parte da enfermeira me chamar de "inha", mas sentia que tinha algo errado. Hj eu olho torto mesmo, sou capaz de falar horrores se me chamarem disso de novo. como é que alguém que nunca me viu na vida vem me chamar pelo diminutivo??? nem minha mãe, né?? é muita "intimidade forçada"!! ser chamada pelo meu nome seria bem mellhor, sinalizaria que o enfermeiro me reconhece como adulto que nem ele, não como um bebê.
bjssss

Mamãe outra vez disse...

Concordo plenamente Renata! Sem mais comentários.

Éricka disse...

Durante a gravidez nunca fui 'gravidinha'. Sempre fui muito ativa e não passei a ser fofolete só pq estava grávida. Continuei com meu jeito, falava palavrão, trabalhava até tarde, ia pra balada e fazia muita ginástica mesmo com aquele barrigão todo.
E logo depois que a Ju nasceu a última coisa que eu me senti foi uma 'mãezinha'. 'Mãezinha, não, meu querido! Mãezona leoa! Olha só o que eu acabei de fazer...'
Tenho até calafrios quando ouço os apelidinhos carinhosos. Nunca gostei de outras pessoas me fragilizando de graça, sem nem me conhecer.

Eloise disse...

Gostei da matéria Renata!
Nunca tinha visto por este lado, mas vç tem razão.

Bjs

drica disse...

Pode ser que tem quem goste. Eu respeito mas, falando por mim, nunca gostei de diminutivos, nem no meu próprio nome. Destesto até hoje todos os 'inhas', tipo 'lindinha' eheh.
Adorei o comentário da Ericka. Quem consegue 'fazer' um bebê, tem que se sentir forte, poderosa mesmo.