Nascendo no barulho

Eu fico toda feliz quando vejo notícia super bacana de pessoas queridas envolvidas na humanização! E hoje trago pra cá uma matéria feita com uma pessoa querida: a enfermeira-obstetra e recém mamãe, Clara Sanfelice.
Parabéns lindona!! Pelo parto humanizado, pelo Henrique, pelo estudo e pelo seu envolvimento com nossa causa!

Dissertação demonstra que nível de ruído em salas de parto está bem acima do recomendado


A enfermeira-obstetra Clara Fróes de Oliveira Sanfelice teve uma surpresa quando, durante as atividades da residência em Obstetrícia realizadas em um hospital no interior do Estado de São Paulo, se deparou com um elevado ruído ambiental na sala de parto. “Sempre imaginei que fosse um ambiente em que as mulheres pudessem vivenciar com harmonia este momento tão importante de suas vidas”, afirma a enfermeira. De um incômodo pessoal, Clara Sanfelice partiu para a investigação acadêmica. Sua surpresa foi ainda maior: o nível médio de ruído registrado nos 79 partos que acompanhou em duas maternidades públicas da região de Campinas foi de 64 decibéis (dB).
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o limite preconizado é de 35 a 40 decibéis. Já A NBR 10.152 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) limita os valores entre 35 e 45 dB para o conforto acústico em enfermarias, berçários e centros cirúrgicos, além de as associações internacionais de pediatria sugerirem o limite máximo de 45 dB como o nível de exposição permitido para os recém-nascidos. Ou seja, as médias encontradas na pesquisa foram muito superiores aos limites estabelecidos.
“Estamos falando de quase 20dB acima dos limites mínimos a que o ser humano deveria estar exposto”, alerta a enfermeira-obstetra, destacando que o nível de pressão sonora em dB é proporcional à intensidade sonora medida em escala logarítmica. Assim, de acordo com a lei da física acústica, um aumento de 6dB resulta no dobro da intensidade sonora e, com isso, a média encontrada na pesquisa mais do que triplicou em relação à recomendação técnica.
Os níveis aferidos alcançaram picos de até 103 decibéis em algumas salas, no caso de partos vaginais – ou normal, como é mais conhecido – sem analgesia. Segundo o estudo, estes foram os partos com maior nível de ruído ambiental, atingindo a média de 66,9dB, ao contrário das cesáreas, cujo nível médio de ruído foi de 61,8dB. “Era de se esperar que o parto vaginal sem analgesia atingisse um nível de ruído superior, visto que a expressão da mulher neste momento é compreensível”, pondera Clara. Mas, ainda assim, em sua opinião, os limites são excessivos.
Para embasar sua pesquisa de mestrado, sob orientação da professora Antonieta Keiko Kakuda Shimo, do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), Clara Sanfelice aferiu ao longo de seis meses o nível de ruído ambiental das salas de parto utilizando um medidor do nível de pressão sonora, popularmente conhecido como decibelímetro, que registra a intensidade sonora em decibéis. Toda coleta realizada seguiu as recomendações técnicas para medições de ruídos, o que exigiu um aprofundamento sobre a questão da física e acústica ambiental. O medidor do nível de pressão sonora era ligado no momento em que os profissionais de saúde entravam na sala para a realização do parto, sendo desligado quatro minutos após ter ocorrido o nascimento do bebê.
A exposição a ruídos desta natureza pode afetar alguns parâmetros fisiológicos do bebê que acaba de chegar ao mundo, além de proporcionar uma transição de ambiente pouco harmoniosa. Para as mulheres, o barulho também pode representar um fator de estresse, atrapalhando a sua concentração. “O ambiente acolhedor, silencioso e sem interferências também favorece a liberação das endorfinas por parte da mãe, o que ajuda até mesmo a diminuição da sensação de dor durante o trabalho de parto”, esclarece.
No caso dos profissionais de saúde, na opinião da enfermeira, a situação também é complexa. Isto porque muitos se submetem a longas jornadas de trabalho expostos a elevados níveis de ruído, o que implica em alterações fisiológicas, como aumento da pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória, além da condição emocional – confusão, estresse, falta de concentração e irritabilidade –, aumentando os riscos de erros e acidentes de trabalho.
“São pequenas doses de intensidade sonora, mas depende de quanto tempo é a exposição. Por isso, é preciso a conscientização dos efeitos prejudiciais para toda equipe de saúde envolvida no processo de nascimento”, alerta Clara, que ressalta a importância do parto humanizado. “Acredito que a atual prática assistencial deve ser mudada, proporcionando uma atuação mais humanizada, respeitosa e harmoniosa durante o nascimento”, conclui a enfermeira.

*Fonte: Unicamp

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