Relato: PD planejado, pós cesárea prévia

Um lindo relato de uma gestante queridona que acompanhei na última semana! 
Espero que gostem!


Quando a espera se transforma em tortura....
...e  a tortura te leva ao paraíso.....

Quando se espera um amor assim, se espera, não adianta. Algo esta dentro de você, algo que vai mudar sua vida pra sempre, algo que vai te fazer mais viva, um amor maior que o mundo, algo que se espera.......
.....e se espera....
Um segundo é muito tempo.....
Um minuto é muito longo......
Um dia é uma vida inteira.....
......e então a espera se transforma em uma tortura.
                Como equilibrar o desejo enorme de te ver chegar, o desejo enorme de te ter nos braços e te beijar com a vontade de te segurar aqui em meu ventre um pouquinho mais? Como esquecer de pensar e se segurar em um tempo em que nada mais vale além da espera? além da imagem de uma chegada importante? do desconhecido que intriga e apaixona? E essa fantasia de um futuro , de uma beleza que te aguarda te domina.
.....e se espera....
É como em uma estação de trem, sentada em um banco,depois de me arrumar toda, cabelos, maquiagem, unha feita, esperando o grande amor da sua vida que vai descer de um daqueles trens, mas você não sabe qual e não sabe que dia e nem que horas. E ai você olha o relógio da estação e espera....todos os dias você volta àquele banco senta e espera...... e ai cada tic-tac  daquele relógio começa a arranhar o seu coração, apertar sua garganta e a espera se transforma em uma tortura ....mas todos os dias você volta e você espera.
......e se espera...
E por mais que as pessoas digam, vai aproveitar, faça outra coisa....e por mais que você faça outras coisas...todos os dias....você espera....
Tudo está pronto...a sua casa está pronta....o berço, as roupas, você checa tudo e checa novamente....e ai você se sente pronta...seu corpo se sente pronto e ...nada...você espera...
Assim foi minha trigésima nona semana de gravidez e assim foi a minha trigésima nona semana de gravidez e mais 6 dias de espera..... e  assim foi que acordei no dia três de junho de 2012 após uma boa noite de sono e me sentindo fisicamente muito bem.. apesar de gorda , inchada e cansada, estava ativa, estava bem, meu corpo já entrara em um equilíbrio perfeito e não fosse minha ansiedade sentia como se minha filha pudesse morar em mim para sempre. Porém emocionalmente estava fraca, cansada, pesada, difícil, estava exigente, já não queria me olhar no espelho e nem ver ninguém. Liguei pra minha irmã precisando chorar....”não chore”, ela disse...”já já ela chega.” Disso eu sabia, mas não parava de ouvir o  tic tac do relógio da estação  e precisava chorar. Chorei, e chorei muito, naquela manhã de domingo calmo, dizendo a ela que eu só precisava chorar um pouco, aliviar minhas angustias e me livrar de minhas fraquezas. Mal sabia eu o que aquele dia ainda reservava para mim!
Tomei um banho e decidi dar um passo de cada vez, decidi que iria me ocupar do meu filho mais velho, decidi que iria me fazer bem se eu dedicasse meu dia a ele. Então começamos a brincar juntos, decidi que só pensaria nele, e quando vi estávamos lavando seus brinquedos no quintal porque ele queria lavar. Fomos almoçar em um restaurante, assistimos ao seu filme preferido na televisão e depois fomos caminhando até a praça do coco. Papai chegou e a titia também, fizemos uma janta juntos e assim o dia passou agradável....... sai do banco da estação e consegui esquecer um pouco a espera.
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Capitulo 1 - Onze horas da noite !

No fim da noite, e é sempre no fim da noite que estas histórias acontecem, claro, graças a nossa lua mais cheia, que estava se preparando para chegar...... comecei a sentir as famosas contrações. Não queria me enganar, mas pareciam as verdadeiras, logo percebi que não conseguiria dormir. Minha cabeça teve medo, minha cabeça sempre tem medo, ela disse: “e agora se eu não conseguir dormir ficarei cansada? Então tenho que dormir...”
Claro que essa é a logica da cabeça que não entende o inexplicável, que não confia nos mistérios da lua cheia! Então fiz um escalda pé e tentei dormir, mas sentada ou deitada, já não dava mais, percebi que a contrações triplicavam de intensidade! O bicho estava pegando! Decidi assumir o risco de ficar acordada e disse para mim mesma que se aquela não fosse a hora, as contrações iam passar mais tarde e eu iria dormir, mas naquele momento precisava levantar e estar ATIVA!
Levantei, liguei pra minha doula (Renata Olah) e contei a ela sobre as contrações e sobre minha decisão,  achamos melhor então observar o ritmo das contrações. Eu para distrair a minha pobre cabeça de ansiedades e angustias decidi fazer faxina na casa! Coloquei um top de faxina, calça larga, amarrei os cabelos, peguei a vassoura, o rodo, o pano e o relógio para contar as contrações...... e pronto! Estava pronta para a guerra! Comecei a faxinar tudo, a cozinha, a sala, varrendo, passando rodo, lavando a louça e quando sentia as contrações chegar me agachava no chão me mexendo de cócoras ou rebolando , vocalizando e assim a dor ia desaparecendo e não sentia tão forte.  Aos poucos sem perceber o ritmo das contrações foram aumentando e eu fui, também sem perceber, me transformando completamente, entrando no transe da dor e me sentindo uma leoa. Gritando, gemendo , rugindo, minha pobre cabeça ainda se prendia no medo e na dúvida, nas concepções modernas ocidentais de controle de tudo, na logica e na razão, e se questionava sempre: onde estou? pra onde vou? existe uma luz no fim do túnel? 
Mas meu corpo já estava dominado pela dor e pela leoa que sairá de dentro de mim e que eu nem imaginava que podia existir. É triste como nós homens modernos não confiamos no nosso corpo, não acreditamos na perfeição da natureza e duvidamos do próprio destino que Deus nos reservou, somos pobres em nossas cabeças, enquanto nossos corpos sabem exatamente oque fazer. Desta forma, tinha que o tempo todo me convencer de que iria conseguir....e ai chegou minha doula finalmente, ela estava lá para me confirmar que meu corpo sabia o que fazer, e me convencer disso. 

Capitulo 2 - Duas horas da manhã .....eu acho.....perdi o relógio!

Eu estava no chuveiro de cócoras, como um bicho, me esticando, me arrastando, com a água queimando nas costas, tentando me aliviar de qualquer forma e vocalizando muito. Minha doula me dizia que eu ia conseguir, e eu acreditava nela. Nisso, já não podia ficar sem ela, ao seu lado minha cabeça não me dominava, ela dizia a minha cabeça de ficar quietinha e não incomodar meu trabalho de parto.
Outro alivio foi quando a minha parteira chegou, as  altas horas da manhã, já não sabia mais aonde estava, já não sabia mais quem eu era, já não tinha mais posição e meus joelhos já estavam tremendo, as contrações já não eram contrações, eram só o que eu sentia, elas pareciam não ter mais pausa, não ter mais suspiro e pareciam não ter mais piedade. Assim Ana me examinou e disso que a bebê já estava chegando, que iriamos agora expulsar!
Foi uma concentração linda, todos ali, envolta, olhando, todos pareciam estar juntos, nem sei quantos eram mas estavam todos comigo naquele momento , empurrando comigo, se abrindo comigo, torcendo para mim. Eu estava intensa, esperançosa, aliviada e com força para este evento. Nunca tinha vivido a expulsão de um bebe de meu corpo e não sabia o que me esperava. Começamos todos juntos ali naquele circulo de fogo. Ana dizia:  ‘”vai querida” e eu me empenhava com toda força, junto com o Romain atrás de mim, que empurrava mais forte ainda. Ele me apertava com toda sua força e respirava forte atrás de mim. Neste momento também senti o quanto ele havia esperado e desejado aquele momento, naquele momento senti os noves meses de gravidez nele, senti sua ansiedade e sua alegria com a chegada de sua filha!
Até o Cauã apareceu neste momento, ele acordou com a barulheira e veio ajudar a mamãe com a sua vibração. E ai foi chegando, a cada respiração a bebê ficava mais perto, e mais perto e até que explodiu......foi a sensação mais dolorosa e mais gostosa da minha vida toda....como o maior prazer do mundo e a maior dor do mundo podem estar tão incrustrados? Unidos ? juntos? A cabeça do bebe quando passa leva tudo embora, todo medo , toda angustia e traz toda a certeza, toda a beleza, todo o amor, e é isso que se sente pela a vagina. Um lugar de tantos mistérios para a mulher é o lugar de tanta beleza e a porta de nossa felicidade. Pobre daqueles que não passam por essa sensação por medo ou coisas pequenas, podem crer é a sensação maior do mundo é a o suor , é a dor, é o amor, é o tesão, é a alegria , tudo isso misturado junto.
E depois disso......depois de tudo isso....depois de tudo.....era só isso......era só ali......o paraíso! Um suspiro, um amor, um ninho! Estávamos todos ali, éramos muita energia, muito gostoso, em meu ninho, todos juntos, acolhidos, sentados, rindo, tomando coca cola, brincando, conversando, agradecendo e amando. Nos sentíamos realizados, nós sentíamos completos e simplesmente felizes.
Toda esta historia, duraram algumas horas, não sei quantas. Passei pelo banco da estação muitas vezes, olhei par o relógio muitas vezes e hoje eu sei que toda aquela espera, toda a tortura, valeu a pena , porque hoje, todas aquelas longas horas e longos dias de espera  se transformaram em  segundos; enquanto essas “algumas horas” do trabalho de parto se transformaram........ em uma vida inteira! Todas as sensações, todos os cheiros, toda a energia, cada movimento, cada gemido , cada gesto, cada olhar, cada segundo, destas algumas horas ficarão marcadas em meu corpo para todo o sempre......Essa experiência vivida é algo que tentamos resumir em uma folha de papel, que tentamos relatar mas é algo que não se relata com palavras, só com sentimentos, gritos , sangue, corpo e alma.Para assim descobrir que é isso que traz um bebe ao mundo, que a dor traz tanta felicidade e que o paraíso é aqui!

Capitulo 3 – Agradecimentos!

            Por fim queria agradecer a Deus que esteve comigo o tempo todo, e que me enviou as pessoas maravilhosas para cuidar de mim! Minha equipe, Ana Cris, Maria Otilia e Renata, que empurraram comigo e me ajudaram a trazer minha filha ao mundo. Elas são dessas pessoas especiais que confiam mais na gente do que a gente mesmo e nos dão forças para realizarmos nossos sonhos! São pessoas que tem a gentiliza de se abrirem para as situações e se dispõem com corpo e alma para os outros. Graças a vocês, muitas mulheres como eu estão conseguindo realizar seus sonhos, dentro de uma realidade inapropriada para isso. Lembrando que vivemos em uma sociedade onde parto normal é cesariana e assim poucas conseguem o que consegui!
Queria agradecer também a todos aqueles que estiveram presentes em meu trabalho sem saber, pois durante minha gestação me ajudaram muito, com cada conversa, com o ombro amigo nas situações difíceis de desanimo e cada dica. Queria agradecer o grupo Samaúma, que me fez chorar de felicidade quando conheci o projeto maravilhoso que realizam e me trouxeram ao logo do tempo muitas informações e apoio, as outras gestantes, que dividiram as agonias comigo e minha professora de yoga Fabiana Assad, que me ensinou muito sobre o meu próprio corpo, com seus movimentos e respirações, tendo o yoga estado presente em todo o meu trabalho de parto. E finalmente agradeço a minha família, que esteve sempre comigo mesmo sem saber das minhas estripulias e me ajudaram a comandar a maternidade Mequetrefe com comidas deliciosas e enfermeiras carinhosíssimas!!!  
Obrigada!
     Thank you!
Merci!
Itana Coutinho

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