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Relato: Parto natural com bebê empelicado

Hoje trago o relato da Clá, gestante que acompanhei e teve um parto lindo! A bebê dela nasceu dentro da bolsa (empelicada!)
Aproveitem!!!


Era o 3º dia da 41ª semana de gestação, seria uma 3ª-feira como as outras, se não fosse o fato de ser a última de gestação, meu marido estar há 9 dias em férias, eu em licença há 23 dias e a Helena nada de chegar. Sentia contrações de Braxton Hicks há mais de um mês, estavam cada vez mais fortes e constantes. Também aconteciam algumas contrações com dor (pródromos) há algumas semanas, mas tão espaçadas que me desaminavam.

Na semana anterior havia chegado ficar um dia e meio com contrações, primeiramente as de Braxton Hicks, que começaram fracas e espaçadas e depois ficaram constantes e fortes e algumas delas seguidas dor, mas não havia evoluído para um trabalho de parto, o que me causou muito desgaste físico com muitas dores musculares e um desgaste emocional. Uma enorme decepção e sensação de fracasso foram os maiores vilões nesse momento, sentia como se meu corpo não fosse capaz de fazer aquilo que minha mente entendia como certo e melhor para minha bebê.

Quatro dias antes, havia feito descolamento de membranas ou descolamento da bolsa (http://www.renataolah.com.br/2010/12/descolamento-de-membranas.html), que não havia surtido o efeito desejado - o início do Trabalho de parto. Após muita caminhada e muito namoro, conforme indicação médica, perdi o tampão na noite posterior, sábado. Assim que aconteceu, avisei a Rê, formos todos dormir cedo acreditando que alguma coisa ia acontecer, mas amanheci no domingo sem nenhuma novidade. Houve uma certa decepção, mas se comparado a 5ª-feira anterior, foi pequena.

A essa altura, a Helena já tinha apelido de tartaruguinha e o pai fazia diversas chantagens com ela: “se sair te dou brigadeiro”, “se sair te levo para brincar em tal lugar”... e assim em diante. Nossos telefones tocavam o dia todo e chegavam mensagens e e-mails perguntando quando a Helena chegaria, se já não estava passando da hora, se havíamos marcado uma cesariana e para quando, etc. Uma semana antes, na DPP (data prevista do parto), havíamos alterado todas as datas para as pessoas, se tínhamos consulta na 2ª-feira, avisávamos que seria na 4ª ou 5ª-feira, se tínhamos ultrassom na 2ª-feira, dizíamos que era na 4ª-feira, ao menos para termos tempo de digerir as informações e tomarmos decisões sem pressão. Ninguém sabia do descolamento de membranas na semana anterior, nem das horas com contração que não vivaram um TP. Às 11h da manhã, em consulta com a Dra Pri, nada havia mudado, se comparado a 6ª-feira, continuava com 1 cm de dilatação e colo posterior. Ela descolou a membrana novamente e nos solicitou uma cardiotocografia para a 6ª-feira, data em que decidiríamos pela indução ou cesariana. Isso foi muito decepcionante, depois de 5 meses fazendo caminhadas, hidro, pilates e RPG, descolado a membrana, caminhado o final de semana todo, feito exercícios em casa, nada mudou, como assim??

 Aproveitei a consulta para falar para a Dra Pri do meu medo de uma cesariana, do quanto não queria e do quanto sabia que ficaria sem ar, que precisava ser sedada se fosse o caso de fazê-la e, na maior calma do mundo, ela me disse que algo dizia que eu ia conseguir o parto natural, que ela não costumava errar. Não sei se foi um “blefe”, mas ao menos saí do consultório com menos medo que entrei. Voltei para casa decepcionada comigo e com meu corpo, tinha feito tudo certo, o que havia de errado? Marquei o exame para a 6ª-feira, dormi um pouco no sofá e saí para almoçar. Do restaurante fui para as aulas de pilates e RPG, que desde setembro fazia 2 vezes por semana. A aula aconteceu normalmente, embora eu me sentisse um pouco desconfortável e com umas contrações estranhas, até que no final, por volta das 15:40 pedi para sair de uma postura do RPG devido uma contração dolorida e chata, mas como outras vezes, acreditei que seria uma contração dolorida no meio de muitas de Braxton Hicks, saí de lá com a lombar dolorida, o que estranhei, já que isso nunca havia acontecido, mas tendo em vista que meu corpo estava inteiro estranho, nem dei importância. Da fisioterapia, fui fazer umas coisas com meu marido na rua e fomos tomar um lanche. No caminho, reclamei que ele passou com o carro num buraco e pedi para parar para retomar o fôlego, achando que era por causa do descolamento da membrana.

Por volta das 17 horas percebi que minhas dores estavam ficando constantes, não queria me animar, estávamos pedindo o lanche e decidi contar a frequência delas: 3 min. Como achei muito rápidas, decidi contar o tempo de duração e pedi ao Rafa para contar a frequência, duravam entre 35 e 45 segundos. Opa, comecei me animar!! Entre uma contração e outra eu mordia um pedaço do pão, mastigava, parava de comer na contração e terminava antes de começar outra. Lembrava que o TP da primeira gestação demora muito e que eu deveria estar alimentada e hidratada. Comi tranquilamente, não sei até agora de onde tirei tal tranquilidade. Chegamos em casa um pouco mais de 18 horas, as contrações continuavam constantes e com a mesma duração. O Rafa ligou para a Rê imediatamente, e eu troquei de roupa e fui para a cama, institivamente deitei com o bumbum para cima, enquanto ele controlava a frequência e duração das contrações para mim. A Rê chegou em casa às 19h, eu ainda estava tranquila, conversando entre as contrações, fazendo piadas, a dor era totalmente suportável.

Logo depois fui para o banho, e a última lembrança que tenho é voltar para o quarto e perguntar para a Rê se ela queria comer. Logo minha mente apagou! Sei pelas fotos que da cama voltei para o banho, tenho a lembrança de alguns flashs como jogando longe a bolsa de água quente, que estava muito quente, do telefone ter tocado, de pedir anestesia, da Rê avisar que a Dra Pri estava a caminho de casa, o que, segundo o Rafa me acalmou ate começar outra contração. Mas a minha melhor lembrança é no meio da dor eu olhar para o Rafa e seus olhos verdes estarem brilhantes, vibrantes, olhando no fundo dos meus olhos e dizendo que eu era capaz e ele confiava em mim. Esse olhar mudou tudo para mim, senti uma força saindo não sei de onde e tive certeza que eu ia conseguir.

Logo fomos para o hospital, ao menos na “partolândia” para mim foi rápido. A Dra Pri nem chegou vir para casa, pelo que a Rê descreveu para ela por telefone e meus gemidos que ouviu, achou que não daria tempo e que já deveríamos ir para o hospital. Essa é uma outra lembrança que tenho, da Rê falar no telefone que “estavam boas”, só depois vim saber que tratavam das minhas contrações. Lembro de sair de casa muito desconfortável e de na garagem sair do elevador e segurar o carrinho de compras com muita força (minha mão ficou uns dias marcada). No carro lembro de pedir ao Rafa que dirigisse devagar e depois pedi para parar o carro. Nessa hora meu corpo fazia força sem eu controlar, mas eu não achava que estava nascendo, para mim passaria a noite com dor, TP é demorado! Cheguei colocar a mão para sentir se havia cabelo, pois sabia que tinha algo muito estranho acontecendo, mas senti pele e desanimei completamente, achei que a Rê estava me enganando dizendo que estava indo bem, e que eu só estava indo para o hospital naquele momento porque meu “strepto” havia data positivo e eu devia tomar antibiótico.

Quando chegamos no hospital, a Dra Pri estava no estacionamento esperando, eram 22:12h pelo ticket do estacionamento, assim que a vi pedi anestesia, ainda ia demorar muito e não ia mais suportar aquilo. Ela me disse que ia me examinar no Pronto Socorro, que a sala estava bem perto, mas para mim pareceu tão longe, e que depois subiríamos para a Centro Cirúrgico e ela chamaria o anestesista. Lembro de entrar na sala e acocorar me segurando numa pia enquanto ela me disse para assim que conseguisse subir na maca para me examinar, nesse momento vi uma roda de sangue no chão. Subi na maca muito rápido, pois não havia como esperar não ter contração, elas estavam juntas! Fiz como deu e logo ouvi a Dra. Pri dizer que estava nascendo e que estava empelicada (dentro da bolsa). Foi um misto de emoção, de dor, de querer o Rafa ao lado, que ainda estava fazendo a internação, de querer registrar, de medo do que estava por vir...mas não dava mais tempo, meu corpo fazia força sozinho e eu respirava fundo pedindo para chamarem o Rafa e pegar a máquina fotográfica. Alguém me perguntou se eu queria ficar na posição que estava (ginecológica) ou se queria mudar, preferi ficar como estava, pois tive medo da Helena nascer antes do Rafa chegar, caso eu mudasse de posição e daquela forma estava conseguindo controlar minha respiração e não fazer força. A primeira força que fiz lembrei que com a bolsa minha laceração seria maior, por isso parei e esperei que viesse a próxima contração ajudar a Helena sair.

Não foi fácil esperar, a ansiedade de vê-la, saber se estava tudo bem, ouvir seu choro, contar os dedos...era muito grande, mas o medo de ter muitos pontos também veio e parei. Na próxima contração, saiu uma menina linda que chegou no meu colo, ainda com o cordão ligado a mim e com a bolsa recém rota chorando, estava rosada e foi direto para o peito. Eram 22:20h! A sensação de pegar minha pequena nos braços, de conseguir o parto natural tão sonhado, de ainda estar com a roupa que cheguei no hospital, da médica dela estar a caminho...era tão surreal, como podia eu ter passado por tudo aquilo em tão pouco tempo, me senti poderosa, forte, mulher plena!

Agradeço de coração ao Rafa, meu grande companheiro nessa jornada do parto natural, que comprou meu sonho, me apoiou todo o tempo e dividiu cada alegria, ansiedade, medo e muitas horas de caminhada comigo, a Rê que exatamente 1 ano antes do nascimento da Helena já me incentivava e apoiava, a Dra Priscila Huguet, que com toda sua paciência e dedicação me permitiu esperar o momento certo para a chegada da Helena, a concretização desse sonho e a plenitude do entendo que é se sentir mulher, a Dra Maria Otilia, que cuidou da minha pequena com tanto carinho e amor na sua 1ª hora de vida e a todo pessoal do Grupo Vínculo por dividir suas experiências e conhecimento.



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