[Relato de Parto] E assim nasceu a Pietra

Faz muito tempo que não posto um relato de parto.... mas hoje, domingão, teremos emoções por aqui!!
Com vocês a história linda da Carol... amiga, fisio e ex-gestante que tive o prazer de acompanhar!!!



Meu relato de parto é também um relato de superação. Depois de tudo que já passei, a Pietra é o nosso milagre!!
Em meados de 2007, quando meus pacientes já não mais entendiam o que eu dizia, acabei em uma cirurgia de emergência, pois corria risco de morte iminente. O tumor foi retirado da minha garganta sem precisar de cortes externos. Em seguida, foram 4 sessões de quimio e 21 de radioterapia, para eliminar totalmente um linfoma não Hodgkin da amigdala da língua. Foram 2 cirurgias na garganta para biópsia, 2 exames da medula (um deles eu não quis anestesia), perda total dos cabelos, meses sem poder receber um abraço da família, quase 10 kg a menos, alguns enjoos, várias endoscopias, e, depois de 2,5 anos, um susto. Precisei de nova biopsia de um caroço que apareceu na minha mandíbula, e, graças a Deus, não era nada. Nessa época já estava casada e minha vontade de ser mãe praticamente gritava dentro de mim. Mas havia um grande problema. Na época do tratamento, disseram-me que talvez jamais poderia ter filhos! E isso quase me enlouqueceu.
No início de 2011, decidimos engravidar. Na época, mudei meu plano de saúde de Americana para Campinas, e procurei uma antiga ginecologista, que ainda era médica da minha mãe e irmã, para realizar exames e me preparar para engravidar. Na mesma época, comecei a me interessar pelos posts da Carla (antiga conhecida da época de UFSCar e que havia se tornado Doula, em Sorocaba). Ela sempre comentava sobre gestação, parto humanizado, aleitamento materno, etc. e eu, na época, que pensava em cesárea, me questionava todos os dias no porque eu havia colocado na cabeça que faria cesariana.
Após muitas leituras e já em dúvida se eu realmente queria uma cesariana, pedi a Carla uma indicação de uma Doula em Campinas. Foi nesse momento que a Renata entrou na minha vida. E ela foi maravilhosa desde o primeiro minuto de conversa. Conversávamos muito, eu perguntava TUDO! Coitada da Rê, que paciência! E aí, em junho de 2011, engravidei. E senti uma felicidade sem fim que logo virou preocupação, pois manchas escuras começaram a aparecer na calcinha, acompanhadas de cólicas e mais cólicas. E aquela ginecologista que estava me acompanhando disse que era tudo normal, não pediu que eu fosse ao consultório, e, logo depois, ela entrou em férias. Não me passou um telefone para contato, disse para enviar email, que demorava dias e dias para ser respondido, e sempre com a mesma informação: não se preocupe, sangramento e cólica é normal no primeiro trimestre. E continuei normalmente nas minhas atividades. E no dia 12 de agosto, acordei com a calcinha encharcada de sangue. Corremos para a Maternidade, onde fui muito mal atendida. Fizeram Ultrassom (era o primeiro, que eu esperava ansiosa para ver meu bebezinho) e não me explicaram absolutamente nada. E o médico simplesmente me disse que eu até poderia ter estado grávida, mas que naquele momento não havia bebê algum. Estava de 7 semanas e 2 dias. Não precisei de curetagem e a minha médica disse que era normal perder a primeira gestação. E foi uma das maiores dores que já senti e aquele fantasma de não ser capaz de gerar uma vida voltou com força total. Foi tudo muito difícil e demorou para conseguir pensar em uma nova gestação.
 Esperamos alguns meses, e decidimos voltar a tentar engravidar novamente. Como eu me senti abandonada pela minha ginecologista durante todo aquele período em que tive os sangramentos, eu e meu marido já não confiávamos mais e também tinha muitas dúvidas se meu parto seria do jeito que eu gostaria. E aí a Priscila entrou na minha vida, indicada pela Rê. E já senti diferença na primeira consulta. A Pri sempre foi firme ao me colocar como protagonista da minha futura gestação e do meu parto.
E em menos de um mês, em fevereiro de 2012, engravidei novamente. E junto com a gravidez veio o medo de uma nova perda. Esperamos o primeiro trimestre passar para acreditarmos que realmente estava tudo bem. Minha gravidez foi bem tranquila, apenas com algumas tonturas, um episódio que pareceu ser uma cólica de rim e o final da gestação que me deixou bastante desconfortável.
Durante toda a gestação frequentei as reuniões do Vínculo, conversava com a Rê e a Pri pela net, tirava minhas dúvidas e também consegui envolver meu marido nisso tudo. Ele frequentou algumas reuniões, leu vários textos que passei para ele, e me apoiou completa e totalmente que o parto fosse humanizado. Ele entendeu toda a importância, toda a diferença e, mais do que tudo isso, ele me encorajou nos momentos em que eu duvidava ser capaz de trazer nossa filha ao mundo naturalmente. Sim, eu decidi pelo parto humanizado e natural! E que a equipe seriam Rê, Pri e Otilia.
Estava com 39 semanas e 3 dias quando comecei a sentir um pouco de líquido escorrendo espontaneamente. Falei com a Pri, que disse não parecer ser a bolsa e que deveria observar, já que no dia seguinte, terça-feira, tinha uma ecografia agendada. Na Eco, tudo certo. Minha neném estava já com quase 3,5kg e não havia sinais de perda de líquido.
Na sexta-feira, 9h da manhã, fui à consulta com a Pri, dia em que ela disse que iria descolar a bolsa, caso tivesse alguma dilatação. Ela mal encostou na bolsa, olhou para mim e disse: Carol, você está com 2cm, a bolsa rompeu e a Pietra pode chegar ainda hoje! Nossa, já comecei a me emocionar ali! Meu coração acelerou, uma mistura de alegria, empolgação, ansiedade e medo, muito medo. Medo de não conseguir! A Pri pediu para irmos para casa e esperarmos. Se não entrasse em trabalho de parto até 21h, daria entrada na Maternidade para indução. Como meu strepto deu negativo, ficaria em trabalho de parto em casa. Iria para a Maternidade somente na hora da Pietra nascer. Liguei para a Rê, que ligou para a Otília. Estavam todas de prontidão para a chegada da Pietra.
Fui para casa, tomei banho e esperei. Almoçamos por volta das 13h e comecei a sentir um incomodo na lombar. Lembro que olhei para o meu marido e disse: “Peto, acho que tive uma contração!”. Ele olhou nos meus olhos e falou: ”Vem, vamos deitar lá na cama, para você descansar. Dorme um pouco. Mais tarde a gente liga para a Rê”. Deitei, descansei e de tempos em tempos, irregularmente, sentia aquela dorzinha na lombar e às vezes no pé da barriga. Lembro que por volta das 16h meu marido passou a monitorar as contrações, que estavam ficando mais próximas e mais fortes. Às 17h30, já estava no chuveiro, com contrações de 1 em 1 min.
Sim, entrei em trabalho de parto! A partir daí já não me lembro de nada com muita clareza. Lembro que minha mãe, que não estava preparada para me acompanhar no trabalho de parto em casa, cada vez que entrava no quarto falava para irmos para o hospital e me deixava extremamente nervosa. Também me lembro que minha irmã e meu pai chegaram, e todos estavam apavorados com a situação, por total falta de preparo. Eles não tinham que estar ali.
E continuei no chuveiro, sentada num banquinho. Ficar sentada era o que me deixava confortável. A Rê chegou num momento em que eu já estava na Partolândia totalmente. Ela pediu que a Dri (enfermeira obstetra) fosse em casa monitorar a bebê e ver a dilatação. Ela chegou 19h30, ouvimos o coraçãozinho em meio as contrações tão próximas e intensas e estava com 5cm. Nesse momento fiquei desesperada! Não entendia como era possível contrações tão próximas e ter dilatado somente mais 3 cm desde o rompimento da bolsa. E eu gritava, e gemia. Era incontrolável. Lembro bem disso. Ficava constrangida cada vez que me dava conta de estar nua, no chuveiro e gritando daquela maneira. E aí, enjoei do chuveiro e quis sair.
 Coloquei calcinha e um top, e sentei de frente para uma cadeira. Meu marido se agachou na minha frente, segurou firme minhas mãos e me dizia o tempo todo que eu estava conseguindo, realizando meu sonho, que eu era forte e que ele não me deixaria desistir. A Rê ficou atrás de mim, também me encorajando, e fazendo compressão na minha lombar. A Dri também estava lá, sentada próxima a mim. Não me lembro disso, mas eu dormi nos intervalos das contrações, que haviam se espaçado de 1 para cerca de 3 min e eu também pedi para ir para o hospital. E meus pais quase que surtaram.
Por volta das 20h10 (40min depois que a Dri havia medido a dilatação), eu lembro de ter falado firme que queria ir para o hospital pois tinha sentido uma vontade enorme de empurrar. Quando a Rê viu sangue na minha calcinha, ela já falou que achava que estava quase total. E a Dri pediu que eu deitasse para ela ver a dilatação. Andar e deitar era praticamente insuportável para mim, mas deitei para que ela pudesse ver a dilatação com mais facilidade. E estava com 9 para 10cm! Eu me lembro que foi a maior correria. E eu fui de quatro no banco de trás, com os braços no colo da Rê. E ela me dizia: ”Não faz força, assopra”. Lembro que eu queria bater nela cada vez que ouvia isso. A vontade de fazer força era incontrolável e assoprar insuportável! Mas se eu fizesse força, a Pietra nasceria ali mesmo, no carro.
Chegamos na Maternidade 8h32. Demoraram para trazer uma cadeira de rodas. Lembro que as enfermeiras queriam tirar minha roupa e eu gritei falando que não iria fazer nada até ver minha obstetra e que eu não entraria sem meu marido, já que minha Doula não poderia me acompanhar. Fomos direto para o CO, eu e meu marido. Finalmente vi a Pri e relaxei um pouco. Coloquei a camisola e pedi para continuar sentada, que era a única posição confortável. Lembro que a Pri me falava que a Pietra estava quase nascendo e eu falava que ela estava mentindo... rs. Meu marido permaneceu ali comigo o tempo todo, olhando nos meu olhos ou falando no meu ouvido que eu havia conseguido, que nossa pequena estava chegando, que faltava muito pouco. E eu gritava nas contrações, uma vontade absurda de fazer força. A dor já não era tão intensa. Senti o circulo de fogo. E então nasceu minha Pietra, às 21h05. Sem anestesia, intervenções ou qualquer ajuda da Pri, que literalmente assistiu ao meu parto. E ela veio forte, saudável, 3,560kg e 49,5cm, linda, sem chorar, direto para o meu colo. E meu coração transbordou de amor. Os olhinhos doces, arregalados, me olhando fixamente, o corpinho perfeito todo sujinho, quentinho, coraçãozinho acelerado em contato com o meu corpo. Mamou logo em seguida (outro medo meu: tenho próteses de silicone e havia a chance de não conseguir amamentar, mas tudo deu muito certo, meu leite desceu 3 dias após o parto!). A Pietra foi avaliada pela Otilia somente depois do meu momento com minha pequena. Pari a placenta e meu marido cortou o cordão somente após parar de pulsar e não houve laceração alguma.
Foi tudo perfeito, lindo, intenso. Superou todas as minhas expectativas. Eu me sinto transformada! Sou ainda mais forte do que imaginava. Mesmo com todo o tratamento contra o câncer, fui capaz de gerar uma vidinha linda, perfeita e, além disso, pari minha filha! Confiei em mim, no meu corpo, na minha força    , no meu marido, na minha equipe! Agradeço, mais uma vez, a todos que me ajudaram a tornar tudo isso possível.

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